quinta-feira, 23 de agosto de 2012

De mala e cuia

Para a irmã Ninim

Dos cinco filhos, lá em casa, apenas as duas mais novas, eu e Ana (Ninim), estudamos além dos quatro anos do primário.
 Embora o pai tivesse muito gosto que os filhos estudassem, os mais velhos logo cedo foram para o trabalho. A ajuda na lavoura era fundamental pra família naquela época de economia. Além disso, a cidade só oferecia o Curso Primário, de forma que quem quisesse estudar um pouco mais, tinha que se locomover pra outras cidades, e, lógico, enfrentar desafios. Na realidade, contavam-se nos dedos as pessoas que continuavam os estudos naqueles finais de anos sessenta, principalmente nas cidades pequenas do interior.

E foi assim, de coragem, a atitude da mana, a primeira da família a procurar caminhos diferentes de trabalho, de jeito de viver, deixar a casa cheia e seguir sozinha. Transporte pau de arara nos anos iniciais até a cidade vizinha; casa de parentes pra frequentar o Curso Normal em cidade mais distante.
 Não foi um trabalho pesado, como o dos irmãos, mas com certeza não foi nada fácil a escolha dela.

Aos dezoito, a vinda a São Paulo.
O trabalho, a vida econômica independente, convívio com pessoas "pra frente", como dizia  o pessoal do interior, ao se referir aos que moravam na capital. Enfim, tudo novo também pra  família  conservadora,  aninhada  no casarão de muita gente, fartura e sol.

Mas a mana deu conta de tudo e nos visitava de vez em quando, levando pra casa notícias da capital, ideias novas... Foi ela quem me presenteou com meu primeiro sutiã. Na realidade, eram dois: lindos, de bojo, um azul claro de bolinha branca, outro rosa xadrezinho.Eles enfeitaram e sustentaram, por muito tempo, não só meu corpo, mas também minha autoestima. Com a mana e o cunhado, meus primeiros contatos com São Paulo. "Girassóis da Russia", no cinema do centro, piqueniques no campo da USP, a primeira vez a Santos conhecer o mar.

Assim a mana passou  a ser referência pra mim, cinco anos mais nova, desde muito cedo. Achava-a inteligente, corajosa e, cá pra nós, bem feminista pra época: direitos das mulheres, liberdade de pensamento, de comportamentos. Surpreendeu todo mundo, quando, por ocasião do seu casamento, resolveu não acrescentar ao seu o sobrenome do marido.
 E, ainda sobre o casamento: o noivo confessou  tranquilamente ao padre, no altar da cidadezinha, que não havia feito a primeira comunhão. Ah era muito modernidade, e eu adorava!

De forma que quando chegou a minha vez de decidir a vida, tudo estava mais fácil. A mana já havia aberto muitos caminhos!

Obrigada, mana querida, parabéns pelos seus setenta anos. Tenho muito orgulho de você e sempre te serei grata!!!!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Tia

TIA

Quase não tive contato com a irmã mais velha, onze anos mais que eu. Quando ela casou, bastante jovem, e foi morar em outra cidade, eu  tinha lá meus nove ou dez anos apenas. De forma que a minha lembrança dela é  maior depois do seu casamento.
E do casamento também.
A tia Elvira, que era uma costureira de mão cheia, fez o vestido lilás muito bonito, com cauda curta, bem ajustado na cintura, que caiu muito bem ao seu porte alto e magro. Depois um jantar em casa, bem simples, feito pela família, com poucos convidados, pois a nona estava  doente. E a mana optou casar mais cedo pra acompanhar o marido que estava se mudando de cidade.
 Teve carne-assada, arroz de forno (a lenha) com muito queijo, bebida e festa, mesmo, alegria pelo casamento da primeira filha, que levava o nome das duas avós, Antonia e Joana. Sobre isso, parece que ela não gostava muito, não, e era mesmo chamada pelo apelido.
Em casa ficou sempre a saudade da filha que estava longe, embora não fosse tão longe assim- talvez uma hora, hoje, de carro, mas naquela época as condições eram outras. A comunicação eram as cartas e uma ou duas visitas por ano. Lembro da primeira vez que visitamos a mana em sua casa no sítio dos sogros. Chegamos, o pai, a mãe e eu, de manhãzinha , de carro alugado, após duas ou três baldeações rodoviárias. Ela nos recebeu debaixo  das muitas árvores que havia próximo a casa. E foi um encontro muito emocionante. Acho que foi a primeira vez que vi a mãe chorar de alegria.
Alguns meses depois (o anticoncepcional ainda não existia), numa das cartas, havia a boa notícia....a mana estava grávida! Nem se podia falar muito no assunto, mas a sensação foi inesquecível. E quando  a criança linda e rechonchuda nasceu, então...a descoberta de um amor diferente! Pegar no colo, ninar, dar e ganhar carinho à vontade...
Definitivamente, ser tia era muito bom, já sabia eu aos dez anos. A longa espera pra chegada do próximo encontro era quase uma tortura. Será que eles vêm pro Natal? Pra Páscoa? Mas acompanhávamos o desenvolvimento da sobrinha pelas cartas "já está engatinhando", dizia a mana. "Agora isso, agora aquilo..."
E quando chegava, a irmã ia mostrando os vestidos que tinha feito pra filha. Caprichados, como sempre. Um de lese, outro de babado com passamanaria... Um laço novo, um sapatinho...Era uma festa  e todos curtíamos muito aquela primeira experiência de tios, de avós...
A irmã, na sua vida curta de sessenta anos, sempre me passou a imagem de uma pessoa boa, de fé, de esperança, de rezas pela felicidade dos filhos. Foi assim que eu a percebi construindo, desde muito jovem, a sua bonita família. "Deu tudo certo, mana! Valeram as suas orações!".

Para a querida irmã Nena, com muita saudade e gratidão, hoje, que seria o seu aniversário!










segunda-feira, 20 de agosto de 2012

VERMELHA



Era vermelha e branca a camioneta Ford, anos 70. O pai tirou zerinho na agência em Jaboticabal, com financiamento oferecido aos agricultores. Da mesma forma, já tinha comprado tratores e outros implementos pro sítio. Carro, assim, de verdade, era o primeiro. Ia dar pra passear, ir à cidade, bem mais rápido e "chique".

 O motorista era o irmão, único filho homem e braço direito nas coisas do sítio. Não quis estudar além da quarta série "Nem precisa, vou ser como o pai", ele dizia, remetendo que o pai tinha se saído bem, mesmo não tendo estudado muito.

Lembro dele ainda muito garoto manobrando o primeiro trator pelas roças de milho, café, algodão...Arar, adubar a terra... Depois um trator mais novo, outro, até que chegou a camioneta. Parecia que ele não queria outra coisa, soberano, na direção, que lhe dava um charme, na cidadezinha sem muitas novidades. Sempre com o vidro aberto, colocava o cotovelo pra fora e ia  dando "dia" e "tarde" a quem encontrasse naquela estrada de poeira de secar a garganta e doer os olhos. Ou um olhar mais ousado pras moças bonitas. Era lindo o irmão!

E o carro, que era da família, na realidade era dele. Pra mim, a obrigação de lavar, secar e dar um bom brilho pelo menos a cada quinze dias. Mas algumas coisas eram mais ou menos regra: levar todo mundo pra missa das oito aos domingos; trazer de volta lá pelas onze, quando ele parava o jogo se sinuca no bar do tio; levar os irmãos na praça fazer o footing, à noite aos sábados e domingos e voltar depois do cinema; levar o pai na cidade, buscar os parentes, visitar parentes, levar alguém ao médico...É lógico que  sempre ocorria alguma confusão: um não chegava, outro se adiantava, mas a verdade é que estávamos sempre na dependência dele pras nossas indas e vindas.

Com o tempo, o trabalho aumentou, vieram os filhos, o irmão tinha que dar conta de tantas coisas, e resolveram arranjar mais um motorista. Foi aí que o pai mais uma vez recorreu ao irmão. Mas dessa vez, pra ensinar a irmã a dirigir. Naquela época,  não era comum as moças dirigirem um carro. Inda mais uma camionetona!

 O mano largava mais cedo do trabalho pra tentar me dar as aulas. Em meio a árvores e vacas sonolentas, fui me familiarizando com primeira, segunda, freio, embreagem... Acho que era muito mais fácil trabalhar duro, no pesado, do que me fazer aprender aquilo. 

 Na vida curta de sessenta anos, o irmão dirigiu tratores, carros, mas sobretudo dirigiu bem sua vida, dedicou-se com prazer à terra, fez ela prosperar; dedicou-se à família e ao cuidado incondicional à  nossa mãe.

Para meu querido irmão, Santo, com saudade e gratidão, neste mês do seu aniversário!



















quinta-feira, 16 de agosto de 2012

COM QUE ROUPA EU VOU





Roupa, naquela época, quase que se resumia a vestidos. Ou saias, que, lá em casa, não podiam ser muito curtos, embora fosse o auge  da minissaia.

Tinha o vestido rosa de renda, tipo tubinho, do casamento da prima; o verde-musgo acetinado  da festa de São Benedito; o estampado vermelho e branco (Que bonita você tá, dizia o primo Luis, quando me via com a roupa); o vermelho-escuro, de gola olímpica, que eu estava usando no dia em que fui pedida em namoro pelo menino bonito lá da cidade vizinha...

Mas  as calças Lee, dos anos 70, começaram a chegar na cidade. Importadas, davam status a quem  usava. Fulano estava de calça Lee? Ah, então interessava. Eu usava, escondido do pai. Saía de casa com uma roupa, depois trocava na casada tia. E as saias, pra ficarem mais curtas era só dar uma uma enroladinha na cintura, depois abaixar. Fazíamos isso na escola, na hora da entrada. E o seu Irapuã, inspetor, nem percebia. "Izolda, não tem um pedaço de pano aí pra pregar na roupa dessa menina? Mamma mia", era uma frase do pai já familiar pra mim.

No frio, uma blusa de lã era o suficiente. Abertas, com botões, elas duravam anos, já que quase nem se percebia muito a mudança de estações  naquela terra de tanto sol. No mais, havia os saiotes, sempre usados sob as saias dos vestidos.

Nenhuma dessas peças era comprada pronta, na minha família. Todas costuradas pelas irmãs, que tinham o curso de Corte e Costura (As meninas, em geral, quando ficavam moças, ganhavam de presente uma Singer ou Elgim, que, ao casarem, levavam de enxoval, junto com uma cômoda de roupas bordadas) e costuravam muito bem pra toda a família. Senão, procurávamos com antecedência as costureiras da cidade.

 Decidida a confecção da roupa, víamos o dia de ir à Jaboticabal ou Bebedouro, de jardineira, comprar os tecidos, ver as vitrines na casa Paris. Aproveitávamos pra tomar vitamina e comer pastel de queijo na rodoviária. Se sobrasse algum dinheiro, levávamos pra casa maçãs cheirosas embrulhadas no papel de seda.

 Os aviamentos (linha, botão, zíper...) eram comprados na cidade, mesmo, no bazar da Marli, ali do lado da praça ou da Luzia, mais lá embaixo. Mais lá embaixo, ainda, na dona Gracinda. O modelo tirávamos das revistas, e as roupas ficavam bonitas e "na moda". Assim foi até os dezoito anos, mais ou menos, quando fomos adquirindo, então, alguma peça pronta.

 Chegavam as festas de São José e São Benedito, era dito e feito: tinha que ter vestido novo pro último dia. Primeiro a procissão, depois a quermesse. Os vestidos mais novos eram depois usados  pra ir à missa. E quando chegávamos em casa, era só trocar por um mais velho.
 Tudo simples. Ou quase!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O pulo do gato


Ainda que o pai fosse bastante conservador em relação a algumas ideias,  parece que era uma pessoa muito evoluída, à frente da maioria da sua época. Gostava do progresso.

Se a mãe quisesse, por exemplo, reformar a casa, ele não arranjava desculpa e ia logo arrumando os pedreiros, alguém que entendesse da coisa. Tanto que a privada  de buraco, no quintal, e o banho de chuveiro manual se transformaram, com o tempo, num confortável  banheiro no interior da casa, com chuveiro de  água encanada e tudo. De uma casinha tímida e simples das velhas fotografias, pudemos desfrutar de uma casa grande e bonita.

Aliás, ele foi um dos precursores da colocação da água encanada na região. Enquanto na cidade se
puxava água do poço, na casa dele, no sítio, ela já vinha, limpa e majestosa, correndo pelos canos, numa tecnologia invejável para a época. Até hoje se encontra no pomar da casa a caixa de depósito de água com a data inscrita: 1960.

 A luz elétrica também não demorou a chegar lá, o que era raro na região rural. E logo vieram a geladeira, a televisão (ah, essa não deu prazer, só passava pouca vergonha, ele dizia). E se aposentaram o ferro de passar (de brasa), o escovão, as lamparinas...

Depois veio o telefone. E já havia os tratores (sempre tinha o mais moderno), a camioneta linda, vermelha, a qual fez questão que eu aprendesse a dirigir. Uma moça dirigir uma camioneta aos dezoito anos não era comum nos anos setenta!

Mas o que sempre me chamou a atenção foi a sua ligação com o conhecimento. Insistia que as pessoas tinham que estudar. E foi com o coração apertado que deixou as filhas saírem de casa pra estudar fora! Ele, embora formalmente tivesse estudado pouco (cinco anos, na Itália, a convite de um padre), continuava a perseguir a aprendizagem. Usava meus livros do ginásio para  rever a geografia. Um deles, de capa de plástico floreado de vemelho, ficava no seu criado-mudo de cabeceira. E quando tomava a lição dos filhos reclamava que o estudo aqui no Brasil era muito fraco. "No ginasial e ainda não sabe os cinco continentes? Mamma mia!"

Passava horas da noite lendo romances ("E o Vento Levou "e "Os Três Mosqueteiros" eram os seus favoritos) e os contava de manhã, emocionado, para quem quisesse ouvir. E, importante, era muito crítico: se não gostava, escondia à chave ou punha fogo no livro. Ninguém podia ler aquelas coisas indecentes ou que " falavam mal de Deus".

Porém, o que distraía mesmo o pai era o velho rádio. De manhã  e principalmente à noite, sentava-se diante dele e se sentia, mais que nunca, participante do mundo. O Repórter Esso, a CBN ( as vozes de Lucas Mendes e Sandra Passarinho eram familiares pra mim), a Bandeirantes e o famoso O Pulo do Gato, apresentado por José Paulo de Andrade. Gostava das notícias internacionais, de política (era de extrema direita- malufista convicto), de tudo. Depois comentava as novidades, e ai de quem o contrariasse.  "Imagina não acreditar que o homem foi à Lua", comentava, mais uma vez indignado.



segunda-feira, 11 de junho de 2012

De chapéu

DE CHAPÉU

Para o meu pai e para todos os pais que deixam eternizados, nos filhos, a gratidão e o gosto de quero mais, como as balas de hortelã.


O pai gostava do conhecimento e do progresso.

"1960" é a inscrição que está até hoje na caixa da água encanada, que substituiu o velho poço, de corrente e balde, no sítio Bela Vista. Depois veio a luz elétrica, a casa mais confortável,com banheiro interno, o carro de passeio...

 Acompanhava, diariamente, no rádio, as notícias nacionais e internacionais: o petróleo, o café, o preço das sacas de feijão, da arroba de gado, mas o que o deslumbrou, de verdade, foi a viagem do homem à lua."Porca miséria! Não acreditar que o homem pisou na lua?" dizia  inconformado com com quem duvidava do feito, nos idos dos anos sessenta."Tem até fotografia!.Mamma mia!"

Embora tivesse frequentado pouco tempo a escola, o pai continuava se aprimorando e insistia que as pessoas tinham que estudar. Usava meus livros do ginásio para  rever a geografia e matar saudades da terra natal. Um deles, de capa de plástico floreado de vermelho e verde ficava no seu criado-mudo da cabeceira. "Tá vendo essa bota? Bem aqui é o povoado onde eu nasci, Treviso" dizia, apontando o lugar no mapa, o que despertava em nós fascínio e desejo enorme de conhecer aquele lugar que a família deixou, mas que jamais se arrependeu "No Brasil não tem guerra", dizia convicto, remetendo-se à Primeira Guerra Mundial, que viu de perto.

Passava horas da noite lendo romances e os contava de manhã, emocionado com os mosqueteiros, com os conflitos de "E o Vento Levou", para quem quisesse ouvir. E, se não passassem pela sua censura, escondia os livros à chave ou queimava.  "Os Meninos da Areia", ganhado do genro paulistano, virou cinza, numa tarde de calor, lá no fogão a lenha, assim como o Erich Daniken. Ninguém podia ler "aquelas coisas indecentes" ou que " falavam mal de Deus".


  Sitiante imigrante e muito econômico, o pai se orgulhava em revelar que possuía a conta número 1 da Caixa Econômica de Taiaçu, a cidade que o acolheu e onde formou sua família. Tinha lá um bom dinheiro guardado. "É pra quando ficar doente", dizia. E pra cada neto que nascia, abria uma pequena poupança e entregava aos pais o número da caderneta. Deu tempo de acolher os onze!  Ele olhava os rendimentos, os juros... Acho que foi o único presente material que se permitiu dar aos netos em vida.

Mas do que eu queria mesmo falar é do cerimonial que acontecia toda vez que ele ia à cidade. Ou pra ir à Caixa, ou pra cortar o cabelo (a barba ele fazia em casa com a navalha), pra ir no contador ou tomar o ônibus que o levaria a Jaboticabal. Todas as vezes passava no correio e na casa da irmã, a doce tia Elvira, pra tomar um café e papear em italianês.

Então, ele se vestia com roupa social que a mãe deixava sobre a cama. Normalmente eram calças escuras e camisas claras de mangas longas, bem passadas a ferro de brasa. Colocava os sapatos  engraxados e não saía sem três acessórios importantíssimos: o relógio dourado, o guarda-chuva e...o chapéu. De feltro,cinza, sempre bem escovado. Ficava mesmo muito elegante, o pai, no seu porte alto e magro.

E lá ia o seu Mário, a pé, cortando caminho. Eram, na realidade, três quilômetros de muito prazer. Ele aproveitava pra ver se o sítio estava bem, se as caixas de água do gado estavam limpas, se havia muito mato, se havia algum foco de  formigas... Se o vizinho tinha consertado a cerca....

Ficávamos nós, em casa, esperando o pai voltar. Às vezes, só à noitinha avistávamos, lá longe, o vulto se aproximando. Com seu chapéu, seu guarda-chuvas... Trazia as notícias da cidade, alguma correspondência que apanhara no correio e sempre, sempre, um bom punhado de balas de hortelã!

Acho que o pai gostava, mesmo, era de amor.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Das brincadeiras

DAS BRINCADEIRAS

"O menino é o pai do homem"- Machado de Assis, in Dom Casmurro

  Bonecas e bolas eram os brinquedos, comprados, que a gente conhecia. Vinham dos pequenos bazares da cidade, ou dos oveiros.
 Puxada por um cavalo, a carroça dos oveiros  passava pelos sítios apinhada de mercadorias. Compravam das mulheres os ovos de galinha (e as galinhas também) que elas iam juntando nas bacias, formando quase uma pirâmide. Dinheiro de ovo era dinheiro de mulher, e elas ficavam muito à vontade pra negociar com o que os negociantes ofereciam. De agulha e linha a joias e porcelanas. Doces, balas...Mas o que enchiam meus olhos eram as bonecas de plástico roseadas, que dava pra pôr ou tirar as pernas, os braços, e não tinham cabelo.
Uma vez por semana ou quinzena, avistávamos lá longe seu Zé de Almeida, depois seu Toninho Gil, chegando vagarosamente com a carroça cheia de surpresas e delícias. Era um momento feminino de mulheres, crianças, de coisas despreocupadas, sem pensar muito, ali ao redor.
Fora as bonecas,  a gente brincava de casinha. Montávamos a brincadeira no pomar, na sombra das bananeiras. Era uma encenação longa, que envolvia muitos afazeres. Primeiro a pesquisa no quintal à cata dos utensílios: as latas de óleo Zílá, de massa de tomate, de sardinha se transformavam em panelas, xícaras e vasos. Às vezes, trazíamos relíquias de outros quintais menos povoados por crianças, como o da tia Amábile. Vínhamos de lá com a cozinha quase pronta.
Fazíamos as estantes de vários andares com tábuas de madeira sustentadas por latas, todas do mesmo tamanho. Colocávamos os pratos, as panelas... o vaso com flores. Varríamos o terreno, levávamos as nossas bonecas, e as espigas de milho  se transformavam rapidinho em visitas, em avô, avó.... Folhas picadas no fogo de verdade, e dávamos de comer aos nossos filhos, encostadas no tronco, meio a cachos de banana....Lá ficávamos longas manhãs, até que a mãe chamava para o almoço.
 Tinha dias de mais aventura e a gente saía pra caçar passarinhos. Então, fabricávamos espingardas com bambus, escolhidos a dedo no quintal. A ponta da "arma" era aberta com dois ou mais cortes para que  ficasse flexível a entrada e saída do "projétil", que se acomodava no nó  da madeira. Enchíamos o embornal de macaúvas. Se a espingarda não ia bem, valia usar o estilingue. Não me recordo de alguém ter acertado em algum anu ou outro passarinho, felizmente! Mas era um desafio e tanto!
Algumas das pequenas caixas de água, que o pai deixava sempre limpas, reservadas aos animais,  ficavam distantes de casa, e, nos finais de semana, a gente aproveitava para um momento meio proibido, de "nadar" sem roupas, no descampado, de conversar segredos sem perigo de que alguém ouvisse.
Sonho, mesmo, era andar de bicicleta, a que tínhamos acesso somente quando o primo Jesus aparecia. Ele dava uma voltinha com cada um de nós na garupa. Depois ia embora pra Monte Alto e deixava a gente com água na boca! Do vento cortando a cara, do friozinho na barriga do sobe e desce, e da certeza de que havia um mundo além daquele que a gente vivia.



Para as primas Helena e Antonieta, parceiras  de uma infância feliz, cheia de liberdade e imaginação.

abril/2012