Para a irmã Ninim
Dos cinco filhos, lá em casa, apenas as duas mais novas, eu e Ana (Ninim), estudamos além dos quatro anos do primário.
Embora o pai tivesse muito gosto que os filhos estudassem, os mais velhos logo cedo foram para o trabalho. A ajuda na lavoura era fundamental pra família naquela época de economia. Além disso, a cidade só oferecia o Curso Primário, de forma que quem quisesse estudar um pouco mais, tinha que se locomover pra outras cidades, e, lógico, enfrentar desafios. Na realidade, contavam-se nos dedos as pessoas que continuavam os estudos naqueles finais de anos sessenta, principalmente nas cidades pequenas do interior.
E foi assim, de coragem, a atitude da mana, a primeira da família a procurar caminhos diferentes de trabalho, de jeito de viver, deixar a casa cheia e seguir sozinha. Transporte pau de arara nos anos iniciais até a cidade vizinha; casa de parentes pra frequentar o Curso Normal em cidade mais distante.
Não foi um trabalho pesado, como o dos irmãos, mas com certeza não foi nada fácil a escolha dela.
Aos dezoito, a vinda a São Paulo.
O trabalho, a vida econômica independente, convívio com pessoas "pra frente", como dizia o pessoal do interior, ao se referir aos que moravam na capital. Enfim, tudo novo também pra família conservadora, aninhada no casarão de muita gente, fartura e sol.
Mas a mana deu conta de tudo e nos visitava de vez em quando, levando pra casa notícias da capital, ideias novas... Foi ela quem me presenteou com meu primeiro sutiã. Na realidade, eram dois: lindos, de bojo, um azul claro de bolinha branca, outro rosa xadrezinho.Eles enfeitaram e sustentaram, por muito tempo, não só meu corpo, mas também minha autoestima. Com a mana e o cunhado, meus primeiros contatos com São Paulo. "Girassóis da Russia", no cinema do centro, piqueniques no campo da USP, a primeira vez a Santos conhecer o mar.
Assim a mana passou a ser referência pra mim, cinco anos mais nova, desde muito cedo. Achava-a inteligente, corajosa e, cá pra nós, bem feminista pra época: direitos das mulheres, liberdade de pensamento, de comportamentos. Surpreendeu todo mundo, quando, por ocasião do seu casamento, resolveu não acrescentar ao seu o sobrenome do marido.
E, ainda sobre o casamento: o noivo confessou tranquilamente ao padre, no altar da cidadezinha, que não havia feito a primeira comunhão. Ah era muito modernidade, e eu adorava!
De forma que quando chegou a minha vez de decidir a vida, tudo estava mais fácil. A mana já havia aberto muitos caminhos!
Obrigada, mana querida, parabéns pelos seus setenta anos. Tenho muito orgulho de você e sempre te serei grata!!!!
Essa modernidade... Tem coisa que a tia ainda é mais moderna que vc.
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