E a bela prima Lúcia relembrou, com olhos muito brilhantes, uma história que eu não conhecia dos tempos que moravam com a nona.
Morava na mesma casa muita gente. Os irmãos (homens) iam casando, formando suas famílias, criando os filhos, sem sair da casa dos nonos. Eram cunhadas convivendo no mesmo espaço, dividindo serviços, dificuldades e até mamada para as crianças. Explico: como, às vezes, coincidia de os filhos nascerem mais ou menos na mesma época, aquela que estivesse em casa, dava de mamar no peito para as crianças, fosse a mãe ou não da criança. Eram primos dividindo brincadeiras, atenção e por que não dizer comida também.
A nona comandava a cozinha e não era fácil alimentar tanta gente. A prioridade eram os homens, que pegavam pesado logo cedo na lavoura do café. E o pão, que era escasso, era reservado a eles. As crianças que comessem a costumeira polenta.
E é aqui que entra a história da Lúcia. A nona guardava o pão dentro de uma sacola, pasmem, dentro do quarto dela, num baú. Não, o pão não podia ficar à mercê daquele bando de criança. O que ela ofereceria no outro dia para os homens?
Mas as crianças eram arteiras..E esperavam o momento certo de adentrar, pé ante pé, o quarto da nona, quando ela estava dormindo. E de migalha em migalha, lá se ia o desejado pão. Mas a nona também era esperta: deitada, colocava o livrinho de oração sobre o rosto e ficava esperando os anjinhos. Imagine o susto deles quando ela se levantava e, no seu italiano exagerado, esparramava com eles todos. Não, não tinham tido sucesso naquele dia.
-O bom é que, às vezes, a nona fazia de conta que não estava vendo, contou a Lúcia, com os olhos então ainda mais brilhantes. -E ela deixava a gente roubar à vontade!
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
sábado, 7 de janeiro de 2012
Férias?
Iam chegando as férias da escola, eu ia ficando triste.
Como assim, levantar de manhã e não ter lugar bom pra ir? Nem arrumar a mala, apontar os lápis, ajeitar o material. Nem pensar na carteirinha que não podia esquecer, no lanche de mortadela ou de manteiga generosa da padaria. E dormir sem a preocupação com a hora de levantar. Tudo faria falta: eram os desafios dos três quilômetros a pé, cortando caminho pelos sítios vizinhos, para, então, tomar o pau de arara que nos transportaria até a outra cidade. E encontrar os colegas, conversar. Olhar de longe o menino lindo da outra classe. Comprar pirulito de caramelo na cantina. E ver os professores e fazer muita lição! E depois, a lição de casa! E procurar no dicionário emprestado as palavras em inglês. (Como era linda a professora de inglês, a Maria Alice, não poderia desapontá-la!). E contar pra mãe o que que tinha acontecido. E ouvir do pai que eu era boa na tabuada, mas não sabia nada de geografia. Que tinha que estudar. Que estudar era muito, muito importante.
De forma que quando chegavam as férias, meu mundo ficava menor. Eu não visualizava nada interessante além daquilo. E o pior: já previa o que de certa forma me amedrontava: que então, como estava desocupada, poderia ir ajudar na roça. É, na roça!
Eram plantações da família e sempre havia alguma coisa pra fazer. Não podia ter preguiça, ouvi várias vezes do pai. Nada de ficar em casa, à toa, enquanto os irmãos estavam na labuta.
Catar algodão era, das atividades, a mais prazerosa; diria, até, lúdica. Olhava-se a extensão do terreno, era uma neve! Pegávamos, então, aqueles flocos macios de dentro da flor de madeira e íamos colocando no grande balaio de palha. Quando este estava cheio, colocávamos nos sacos, que ficavam nas ruas laterais. À tarde alguém vinha, com uma balança, verificar o ganho dos catadores.Os sacos, enfileirados, ficavam todos à espera. Quanto algodão pra tão pouco lucro, eu já observava.
Na colheita do café, ia eu com a mãe pra debaixo dos arbustos fechados de galhos vermelhinhos. Escorregava firmemente a mão neles, do tronco para fora, para que todos os grãos caíssem no chão, forrado previamente para a cata. Sempre tomando cuidado com os arranhões. E com cobras. Elas adoravam os pés de café.
Um enorme pano branco era instalado no meio da roça. Frente a ele, um cavalete de madeira bem resistente.Vários homens batiam fortemente nele os feixes amarelinhos, que eram levados pelas mulheres e crianças ao lugar, depois de cortados com foices. Um exército de pessoas ao mesmo tempo: alguns cortavam e deixavam em montes, outros carregavam e, finalmente, havia os que batiam e os que ensacavam. Era a colheita de arroz! Um teatro a céu aberto!
E havia também a colheita do tomate, do feijão...
E a cada nova colheita, mais eu me lembrava da escola. Maior ela se tornava!
Decididamente, não deveria haver férias. Nunca!
Como assim, levantar de manhã e não ter lugar bom pra ir? Nem arrumar a mala, apontar os lápis, ajeitar o material. Nem pensar na carteirinha que não podia esquecer, no lanche de mortadela ou de manteiga generosa da padaria. E dormir sem a preocupação com a hora de levantar. Tudo faria falta: eram os desafios dos três quilômetros a pé, cortando caminho pelos sítios vizinhos, para, então, tomar o pau de arara que nos transportaria até a outra cidade. E encontrar os colegas, conversar. Olhar de longe o menino lindo da outra classe. Comprar pirulito de caramelo na cantina. E ver os professores e fazer muita lição! E depois, a lição de casa! E procurar no dicionário emprestado as palavras em inglês. (Como era linda a professora de inglês, a Maria Alice, não poderia desapontá-la!). E contar pra mãe o que que tinha acontecido. E ouvir do pai que eu era boa na tabuada, mas não sabia nada de geografia. Que tinha que estudar. Que estudar era muito, muito importante.
De forma que quando chegavam as férias, meu mundo ficava menor. Eu não visualizava nada interessante além daquilo. E o pior: já previa o que de certa forma me amedrontava: que então, como estava desocupada, poderia ir ajudar na roça. É, na roça!
Eram plantações da família e sempre havia alguma coisa pra fazer. Não podia ter preguiça, ouvi várias vezes do pai. Nada de ficar em casa, à toa, enquanto os irmãos estavam na labuta.
Catar algodão era, das atividades, a mais prazerosa; diria, até, lúdica. Olhava-se a extensão do terreno, era uma neve! Pegávamos, então, aqueles flocos macios de dentro da flor de madeira e íamos colocando no grande balaio de palha. Quando este estava cheio, colocávamos nos sacos, que ficavam nas ruas laterais. À tarde alguém vinha, com uma balança, verificar o ganho dos catadores.Os sacos, enfileirados, ficavam todos à espera. Quanto algodão pra tão pouco lucro, eu já observava.
Na colheita do café, ia eu com a mãe pra debaixo dos arbustos fechados de galhos vermelhinhos. Escorregava firmemente a mão neles, do tronco para fora, para que todos os grãos caíssem no chão, forrado previamente para a cata. Sempre tomando cuidado com os arranhões. E com cobras. Elas adoravam os pés de café.
Um enorme pano branco era instalado no meio da roça. Frente a ele, um cavalete de madeira bem resistente.Vários homens batiam fortemente nele os feixes amarelinhos, que eram levados pelas mulheres e crianças ao lugar, depois de cortados com foices. Um exército de pessoas ao mesmo tempo: alguns cortavam e deixavam em montes, outros carregavam e, finalmente, havia os que batiam e os que ensacavam. Era a colheita de arroz! Um teatro a céu aberto!
E havia também a colheita do tomate, do feijão...
E a cada nova colheita, mais eu me lembrava da escola. Maior ela se tornava!
Decididamente, não deveria haver férias. Nunca!
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