A missa dos domingos na igreja matriz era ponto de encontro pra ver as colegas e os parentes, na nossa cidadezinha do não-ter- muito-o-que-fazer.
Era principalmente lá que eu via a doce tia Amabile. Uma das irmãs mais velhas do pai, a tia chegava na cidade, arrumada e discreta sob a sombrinha, na costumeira charrete, puxada por cavalo da sua propriedade. Vinha na companhia da filha caçula (as outras já haviam casado), estacionavam o veículo ali bem próximo da tia Elvira, e, cabisbaixo, o animal esperava pela boa vontade das senhoras
.
O marido e os filhos vinham a cavalo. Não me recordo de vê-los na charrete. Charrete era algo talvez muito feminino, que não combinava nada, nada com tio Ângelo. Forte, grandalhão e carregado de tatuagens no braço, o tio despertava em nós, crianças, um certo receio, tal força ele imprimia quando nos cumprimentava. Chegava a entortar o braço da sua presa, e só soltar após alguns ais. Era fácil encontrá-lo nos campos de bocha, na qual era especialista, no bar do tio Severino.
Às vezes visitávamos os tios no sítio onde moravam. Era garantia de muito prazer. A casa era grande, alta, suntuosa, até. Tinha móveis escuros, quadros nas paredes, mas o que me chamava mais a atenção era o relógio. Um cuco lindo e incansável na parede de entrada na sala de visitas. Havia também uma mesa comprida na copa, que me atraía. Era lá que tomávamos fartos cafés recheados de doces e queijo feito em casa. (Cheguei mesmo a esconder sob a manga fofa do meu vestido boas fatias do delicioso quitute para comer mais tarde).
Mas do que gostávamos mesmo era de desbravar os quintais. A verdade era que como na casa não havia crianças, eles eram repletos não só de frutas, mas de quinquilharias que serviam pra gente brincar: latinhas, vidros, madeiras, tudo que pudesse compor nossas brincadeiras quando chegássemos em casa.. E saíamos de lá carregadas, cansadas, na certeza de que o passeio tinha rendido.
Vez ou outra, no fim da tarde, avistávamos, longe, os primos, montados em seus belos cavalos cobertos por uma capa, se achegando a nossa casa. Traziam baldes cheios de favo de mel que haviam acabado de tirar!
Não me lembro de alguma conversa especial com a tia, nem mesmo sei o que ela pensava. Mas sua imagem doce e serena continuam se misturando ao mel e às badaladas do cuco das minhas lembranças!
terça-feira, 13 de agosto de 2013
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Vizinhos
Da nossa casa, ao alto, numa visão exuberante, avistavam-se quase que totalmente as três outras casas da propriedade. Nelas moravam os colonos que trabalhavam no sítio. Na verdade, eram quase todos parentes, vez ou outra algum desconhecido.
A última era a casa da tia Assunta. Magrinha e falante, a tia dizia sempre que não tivera sorte na vida. Perdera o marido muito cedo, deixando-a com os filhos para criar. Antes da morte o sofrimento pela bebida, as separações, depois a doença. O nascimento de filhos gêmeos por duas ou três vezes, a morte de filho pequeno, a morte da filha moça...
Mas da casa da tia Assunta guardo as mais queridas lembranças. Era lá que ia posar muitas vezes, brincar com as primas, e principalmente ouvir histórias. Ela adorava contar sobre a Itália, sobre a viagem de navio...Sobre as notícias policiais que ouvia todos os dias no rádio, as histórias das revistas, mesmo as religiosas (Edições Paulinas) davam assunto. Atiçava não só a minha imaginação, como a reflexão. Era crítica ferrenha do aborto e não perdoava alguém que pudesse ter provocado.
Adorava crianças, elogiava, todas eram lindas...Enfim, a tia preenchia em mim alguma coisa que eu gostava e só lá encontrava. Observava como ela tratava os filhos, como se virava pra cuidar de todos. A hora da roça do Luis e do Pedrinho, a roupa limpa da Ana e da Helena, os dengos pra Antonieta, o amor a todos eles. Lembro da macarronada vermelhinha de massa de tomate que ela colocava na bacia de alumínio e a gente experimentava quando vinha da missa aos domingos. Dos chuchus pequeneninhos que cozinhava na chaleira do fogão de lenha quando alguém dizia que estava com vontade de alguma coisa boa. Senão, eram as fatias de pão amanhecido que embebia no leite com muito açúcar, fritava e fazia a gente lamber os beiços.
O terreiro limpo, o galinheiro, o poço de água. Bacias grandes de roupa de molho no sol, só esperando as mãos-máquina da dona. E a sombra do pé de jaca, de manga. As jaboticabeiras...
Nas outras duas casas, menores e menos sombreadas, separadas por um riozinho e uma ponte de terra, moravam os filhos casados da tia Assunta: o Bem e o Nico. Trabalhavam eles todos no sítio, com trabalho fixo ou como meeiros.
Nico tinha uma história muito bonita de amor à família e à terra. Mais velho dos filhos era arrimo de família. Cuidara do pai doente, aprendera a dar injeções e exercia a função sempre que precisasse (hoje ela não pode, confidenciou um dia minha mãe ao pé do seu ouvido,- ela ficou mocinha, referindo-se à injeção que eu teria que tomar por causa da hepatite, aos treze anos).
O primo olhava sempre pro céu. Será que vai chover?, dizia, abaixando para trás o chapelão de palha na tentativa de advinhar a sorte com as chuvas. Não queria de jeito nenhum perder a sua bela plantação de tomates, de algodão, de milho...Tinha dado tanto trabalho! E gasto, então! A Idalina é que sabia.
E todos os dias ele ouvia, paciente, enrolando seu cigarro de palha, as histórias que o pai contava, logo cedo, depois de tirar o leite e tomar um café na nossa cozinha, onde ele entrava sem cerimônias. Ou no fim da tarde, depois da pinguinha, que descia num gole só.
Eram os vizinhos, na verdade, grandes amigos. Referências fundamentais na minha vida.
A última era a casa da tia Assunta. Magrinha e falante, a tia dizia sempre que não tivera sorte na vida. Perdera o marido muito cedo, deixando-a com os filhos para criar. Antes da morte o sofrimento pela bebida, as separações, depois a doença. O nascimento de filhos gêmeos por duas ou três vezes, a morte de filho pequeno, a morte da filha moça...
Mas da casa da tia Assunta guardo as mais queridas lembranças. Era lá que ia posar muitas vezes, brincar com as primas, e principalmente ouvir histórias. Ela adorava contar sobre a Itália, sobre a viagem de navio...Sobre as notícias policiais que ouvia todos os dias no rádio, as histórias das revistas, mesmo as religiosas (Edições Paulinas) davam assunto. Atiçava não só a minha imaginação, como a reflexão. Era crítica ferrenha do aborto e não perdoava alguém que pudesse ter provocado.
Adorava crianças, elogiava, todas eram lindas...Enfim, a tia preenchia em mim alguma coisa que eu gostava e só lá encontrava. Observava como ela tratava os filhos, como se virava pra cuidar de todos. A hora da roça do Luis e do Pedrinho, a roupa limpa da Ana e da Helena, os dengos pra Antonieta, o amor a todos eles. Lembro da macarronada vermelhinha de massa de tomate que ela colocava na bacia de alumínio e a gente experimentava quando vinha da missa aos domingos. Dos chuchus pequeneninhos que cozinhava na chaleira do fogão de lenha quando alguém dizia que estava com vontade de alguma coisa boa. Senão, eram as fatias de pão amanhecido que embebia no leite com muito açúcar, fritava e fazia a gente lamber os beiços.
O terreiro limpo, o galinheiro, o poço de água. Bacias grandes de roupa de molho no sol, só esperando as mãos-máquina da dona. E a sombra do pé de jaca, de manga. As jaboticabeiras...
Nas outras duas casas, menores e menos sombreadas, separadas por um riozinho e uma ponte de terra, moravam os filhos casados da tia Assunta: o Bem e o Nico. Trabalhavam eles todos no sítio, com trabalho fixo ou como meeiros.
Nico tinha uma história muito bonita de amor à família e à terra. Mais velho dos filhos era arrimo de família. Cuidara do pai doente, aprendera a dar injeções e exercia a função sempre que precisasse (hoje ela não pode, confidenciou um dia minha mãe ao pé do seu ouvido,- ela ficou mocinha, referindo-se à injeção que eu teria que tomar por causa da hepatite, aos treze anos).
O primo olhava sempre pro céu. Será que vai chover?, dizia, abaixando para trás o chapelão de palha na tentativa de advinhar a sorte com as chuvas. Não queria de jeito nenhum perder a sua bela plantação de tomates, de algodão, de milho...Tinha dado tanto trabalho! E gasto, então! A Idalina é que sabia.
E todos os dias ele ouvia, paciente, enrolando seu cigarro de palha, as histórias que o pai contava, logo cedo, depois de tirar o leite e tomar um café na nossa cozinha, onde ele entrava sem cerimônias. Ou no fim da tarde, depois da pinguinha, que descia num gole só.
Eram os vizinhos, na verdade, grandes amigos. Referências fundamentais na minha vida.
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