segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Vizinhos

Da nossa casa, ao alto, numa visão exuberante, avistavam-se quase que totalmente as três outras casas da propriedade. Nelas moravam os colonos que trabalhavam no sítio. Na verdade, eram quase todos parentes, vez ou outra algum desconhecido.

A última era a casa da tia Assunta. Magrinha e falante, a tia dizia sempre que não tivera sorte na vida. Perdera o marido muito cedo, deixando-a com os filhos para criar. Antes da morte o sofrimento pela bebida, as separações, depois a doença. O nascimento de filhos gêmeos por duas ou três vezes, a morte de filho pequeno, a morte da filha moça...

Mas da casa da tia Assunta guardo as mais queridas lembranças. Era lá que ia posar muitas vezes, brincar com as primas, e principalmente ouvir histórias. Ela adorava contar sobre a Itália, sobre a viagem de navio...Sobre as notícias policiais que ouvia todos os dias no rádio, as histórias das revistas, mesmo as religiosas (Edições Paulinas) davam assunto. Atiçava não só a minha imaginação, como a reflexão. Era crítica ferrenha do aborto e não perdoava alguém que pudesse ter provocado.

Adorava crianças, elogiava, todas eram lindas...Enfim, a tia preenchia em mim alguma coisa que eu gostava e só lá encontrava. Observava como ela tratava os filhos, como se virava pra cuidar de todos. A hora da roça do Luis e do Pedrinho, a roupa limpa da Ana e da Helena, os dengos pra Antonieta, o amor a todos eles. Lembro da macarronada vermelhinha de massa de tomate que ela colocava na bacia de alumínio e a gente experimentava quando vinha da missa aos domingos. Dos chuchus pequeneninhos que cozinhava na chaleira do fogão de lenha quando alguém dizia que estava com vontade de alguma coisa boa. Senão, eram as fatias de pão amanhecido que embebia no leite com muito açúcar, fritava e fazia a gente lamber os beiços.

O terreiro limpo, o galinheiro, o poço de água. Bacias grandes de roupa de molho no sol, só esperando as mãos-máquina da dona. E a sombra do pé de jaca, de manga. As jaboticabeiras...

Nas outras duas casas, menores e menos sombreadas, separadas por um riozinho e uma ponte de terra, moravam os filhos casados da tia Assunta: o Bem e o Nico. Trabalhavam eles todos no sítio, com trabalho fixo ou como meeiros.

Nico tinha uma história muito bonita de amor à família e à terra. Mais velho dos filhos era arrimo de família. Cuidara do pai doente, aprendera a dar injeções e exercia a função sempre que precisasse (hoje ela não pode, confidenciou um dia minha mãe ao pé do seu ouvido,- ela ficou mocinha, referindo-se à injeção que eu teria que tomar por causa da hepatite, aos treze anos).

O primo olhava sempre pro céu. Será que vai chover?, dizia, abaixando para trás o chapelão de palha na tentativa de advinhar a sorte com as chuvas. Não queria de jeito nenhum perder a sua bela plantação de tomates, de algodão, de milho...Tinha dado tanto trabalho! E gasto, então! A Idalina é que sabia.

 E  todos os dias ele ouvia, paciente, enrolando seu cigarro de palha, as histórias que o pai contava, logo cedo, depois de tirar o leite e tomar um café na nossa cozinha, onde ele entrava sem cerimônias. Ou no fim da tarde, depois da pinguinha, que descia num gole só.

Eram os vizinhos, na verdade, grandes amigos. Referências fundamentais na minha vida.

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