segunda-feira, 18 de julho de 2011
EMBALOS DE SÁBADO À NOITE ou FAZER O FOOTING
"Ir no jardim" era o programa principal, senão único, dos moços e moças da nossa cidade, aos sábados e domingos. Se não chovesse, claro! Uma chuvinha já dispersava todo mundo e lá se ia um dia aguardado de diversão.
Logo que terminava a reza na matriz, a praça começava a pipocar. De gente e de algum carrinho de pipoca, sob a iluminação tímida e pálida dos postes de madeira. Lá pelas oito, oito e meia, estava cheia a praça junto às primaveras entrelaçadas, pingos de ouro e flamboboyants vermelhos.
Eram jovens da cidade e das redondezas, que iam se divertir, se encontrar, namorar e arrumar namorado, por que não? (moça com mais de vinte e cinco anos era rotulada decididamente "solteirona", e ninguém queria ser). Algumas famílias ficavam por ali, acompanhando os filhos, enquanto crianças e sorvetes se misturavam à roda perto do coreto.
Pessoas dos sítios chegavam de charrete ou a cavalo.Os animais ficavam por ali, cabisbaixos, presos a alguma árvore, provavelmente torcendo pela sorte do dono. Outros chegavam de trator com a carreta apinhada de gente e era estacionada, quase sempre, bem em frente à praça. Havia poucos carros, algumas camionetas dos sitiantes ou fazendeiros. Mais sorte tinham os que moravam na cidade, não faziam nenhum sacrifício pra desfrutar daquele deleite, eu pensava e invejava.
A verdade é que, com maior ou menor dificuldade, não havia ninguém que desprezasse a diversão nos finais de semana.Colocávamos a melhor roupa, calça Lee (ai, quem não tivesse uma!), cabelo arrumado depois da touca. As moças iam chegando, encontravam as colegas (tinha que ter colega, senão não havia como fazer o footing), e pasme! Davam-se os braços, duas, três, às vezes quatro moças e ficavam andando, por horas, de cabo a rabo por um corredor feito meia lua, que cortava a praça.
Surpreendente é que os rapazes permaneciam normalmente parados fazendo como que um cordão no corredor, observando as moças passarem. Como um desfile, uma maneira de se mostrarem, sutilmente, a eles (feministas, não leiam isso!). E quando um se interessava pela beldade, viam-se piscadelas, ouvia-se um "psiu". Se a moça estivesse interessada, parava. E aí então vinha um "Você já é comprometida?" ou " Quer namorar comigo? ". E a moça, vez ou outra, ficava feliz e cheia de si pelo galanteio recebido.
Nesse caso, ela deixava as amigas e saía pra conversar com o pretendente. No claro, senão "os outros" já iam falar. O escurinho ficava pra alguns casais mais afoitos, que não se importavam muito com o que iam dizer no outro dia algumas beatas de plantão.
Certos grupos ficavam pelos bancos, às vezes já demarcados. A turma do fulano, da beltrana. Já se sabia, mais ou menos onde encontrar as pessoas. A turma do Zé Flávio todo mundo conhecia, ficava bem lá no redondo. Confesso que tinha uma certa inveja daquele grupo unido, descolado e festeiro : Toninho, Tânia, Wilsinho, Ceia, Regina...e tantos mais agregados. Do outro, os meninos bonitos em camisas "volta ao mundo".
"Que pena, fulano não veio! Deve ter ido a Taiúva, Pirangi, Vista Alegre... Tem baile lá hoje? Ou quermesse?", se ouvia de alguma colega .Qualquer comemoração nas cidades vizinhas já desfalcava a nossa. Teria que esperar mais uma semana.
Durante esse tempo, a recordinha do cine São José anunciava a programação do dia: Mazaropi, O Gordo e o Magro ou faroestes americanos, entremeados com oferecimentos de música para um amigo, um pretendente... Então, ecoava o som melancólico de Teixeirinha, quem sabe Roberto Carlos.
Quem não fosse ao cinema, permanecia ali na praça,até lá pelas dez, quando ela ia, aos poucos e silenciosamente ficando vazia e muda, como fica a casa dos pais quando se vão os filhos.
Fechada a igreja, vazios os bancos, as árvores balançando os galhos meio à lua e às estrelas,. Quem sabe agradecendo. Ou celebrando sonhos de uma juventude, de certa forma ingênua, mas corajosa e cheia de esperança e fé na vida.
Solitárias, na penumbra, folhas e papéis de bala deslizavam pelo chão.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
As lamparinas
Quando ia entardecendo, era hora de acender as lamparinas.
Eram feitas em casa mesmo. Pegavam-se pequenos vidros ou latas usados, amarrava-se uma sustentação de arame ou metal qualquer para a haste, colocava-se um pavio com um feixe de barbante, que ficaria imerso no poderoso querosene.
Ah, o querosene! Quanto foi queimado pra iluminar as noites de breu do sítio Bela Vista! Acendiam-se uma ou duas lamparinas em cada cômodo que tivesse gente, fosse na cozinha pra fazer a janta, arrumar a cozinha, debulhar milho; na sala, pra bordar, costurar, ler ou pra ouvir o rádio (a hora do Repórter Esso era solene - a das radionovelas também). Para o quarto, a lamparina apenas nos transportava. Aí, realmente tudo ficava escuro.
Pra transitar de um cômodo pro outra tinha que carregar uma delas, pois o espaço era imenso pra tão pouca luz.Tenho bem clara a imagem da mãe andando pela casa com a sua, ajeitando as coisas antes de dormir: era recolher as vassouras (podia chover), apanhar alguma roupa que por acaso ainda estivesse no varal, e as lenhas.Teria lenha suficiente pra fazer o café no outro dia? E os fósforos, estariam lá no lado da cama pra usar de manhãzinha?
Lembro que quando chegou, felizmente, a luz elétrica, a mãe continuava a acender as lamparinas pra perambular pela casa. Mal imaginava ela as maravilhas que ainda poderíamos vislumbrar.
Eram feitas em casa mesmo. Pegavam-se pequenos vidros ou latas usados, amarrava-se uma sustentação de arame ou metal qualquer para a haste, colocava-se um pavio com um feixe de barbante, que ficaria imerso no poderoso querosene.
Ah, o querosene! Quanto foi queimado pra iluminar as noites de breu do sítio Bela Vista! Acendiam-se uma ou duas lamparinas em cada cômodo que tivesse gente, fosse na cozinha pra fazer a janta, arrumar a cozinha, debulhar milho; na sala, pra bordar, costurar, ler ou pra ouvir o rádio (a hora do Repórter Esso era solene - a das radionovelas também). Para o quarto, a lamparina apenas nos transportava. Aí, realmente tudo ficava escuro.
Pra transitar de um cômodo pro outra tinha que carregar uma delas, pois o espaço era imenso pra tão pouca luz.Tenho bem clara a imagem da mãe andando pela casa com a sua, ajeitando as coisas antes de dormir: era recolher as vassouras (podia chover), apanhar alguma roupa que por acaso ainda estivesse no varal, e as lenhas.Teria lenha suficiente pra fazer o café no outro dia? E os fósforos, estariam lá no lado da cama pra usar de manhãzinha?
Lembro que quando chegou, felizmente, a luz elétrica, a mãe continuava a acender as lamparinas pra perambular pela casa. Mal imaginava ela as maravilhas que ainda poderíamos vislumbrar.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Era dia de matar porco
Dia de matar porco era um evento.
Já na véspera, os preparativos: afiar as facas era ofício de homem.Meu pai o fazia com esmero. Ele mesmo usaria uma delas na hora fatal. Catar lenha seca (o fogão dentro da cozinha e o improvisado fora de casa não sossegavavam) ou colocá-las pra secar em cima da chapa quente era serviço das crianças, geralmente supervisionado pela mãe.Atrás da porta da cozinha já ficava uma porção delas, mas não daria conta.
Não podia, de forma alguma, deixar de avisar os vizinhos - duas ou três pessoas, normalmente parentes. " Vai lá, avisa a Idalina que amanhã vai matar porco. O Nico, também".
Sempre vinha alguém pra ajudar.Ou na hora da matança, quando precisava de gente pra pegar o porco, colocá-lo sobre um estrado de madeira , limpá-lo com água fervente e destrinchá-lo de vez, ou durante o dia todo, na lida com aquele animal feio, esquartejado sobre a mesa da varanda.
No final do dia, as pessoas iam embora sempre com um pratinho na mão: um pedaço de carne boa, um naco de toucinho, um pouco de linguiça...Mesmo as famílias que não tivessem ajudado tinham direito a uma lembrancinha, pequena que fosse, daquela iguaria. Daria uma boa mistura da marmita do dia seguinte.
As crianças que iam pra escola na cidade se incumbiam de comprar o pão e o ksuco ( que era tomado sem gelo), a soda pra fazer o sabão, e o fundamental: as tripas pra encher as linguiças, os codeguins..."Compra lá na venda do Bettine, e manda marcar", dizia minha mãe, atarantada.
Não era fácil matar porco, dar conta de tanta carne.Tudo tinha que ser feito num dia só, não havia geladeiras, freezers....Cuidar das carnes, temperar, fritar,moer, encher as linguiças, derreter as gorduras e encher as latas daquele líquido ( ficaria depois uma massa branca), que servia também pra armazenar os lombos, suãs, costelas e outros proventos.
Tudo aquilo era alimento sagrado que tinha que durar meses. A gordura era a matéria-prima na cozinha. Nada se fazia sem uma boa concha dela. E a "mistura" do dia a dia
era principalmente a carne de porco. Quando chegavam as visitas era lá de dentro das latas que a mãe retirava um lombo cheiroso, macio, que derretia.
Alguém da casa preparava o almoço pra toda aquela gente. E os bifes, o fígado e até os torresmos do próprio animal se juntavam às bacias de salada da horta e iam sendo devorados.Assim, sem dó, nem restrições. Depois vinha o café cheiroso, moído na hora. Café não podia faltar nunca.
Lavar a barrigada na beira do rio ou na caixa d'água também era obrigatório. Podia até ser feito no outro dia, mas não podia jogar fora. Algumas tripas eram aproveitadas pras linguiças.Como ninguém gostava de bucho, a barrigada praticamente todinha ia pro sabão.
Aí já é outra história.
Já na véspera, os preparativos: afiar as facas era ofício de homem.Meu pai o fazia com esmero. Ele mesmo usaria uma delas na hora fatal. Catar lenha seca (o fogão dentro da cozinha e o improvisado fora de casa não sossegavavam) ou colocá-las pra secar em cima da chapa quente era serviço das crianças, geralmente supervisionado pela mãe.Atrás da porta da cozinha já ficava uma porção delas, mas não daria conta.
Não podia, de forma alguma, deixar de avisar os vizinhos - duas ou três pessoas, normalmente parentes. " Vai lá, avisa a Idalina que amanhã vai matar porco. O Nico, também".
Sempre vinha alguém pra ajudar.Ou na hora da matança, quando precisava de gente pra pegar o porco, colocá-lo sobre um estrado de madeira , limpá-lo com água fervente e destrinchá-lo de vez, ou durante o dia todo, na lida com aquele animal feio, esquartejado sobre a mesa da varanda.
No final do dia, as pessoas iam embora sempre com um pratinho na mão: um pedaço de carne boa, um naco de toucinho, um pouco de linguiça...Mesmo as famílias que não tivessem ajudado tinham direito a uma lembrancinha, pequena que fosse, daquela iguaria. Daria uma boa mistura da marmita do dia seguinte.
As crianças que iam pra escola na cidade se incumbiam de comprar o pão e o ksuco ( que era tomado sem gelo), a soda pra fazer o sabão, e o fundamental: as tripas pra encher as linguiças, os codeguins..."Compra lá na venda do Bettine, e manda marcar", dizia minha mãe, atarantada.
Não era fácil matar porco, dar conta de tanta carne.Tudo tinha que ser feito num dia só, não havia geladeiras, freezers....Cuidar das carnes, temperar, fritar,moer, encher as linguiças, derreter as gorduras e encher as latas daquele líquido ( ficaria depois uma massa branca), que servia também pra armazenar os lombos, suãs, costelas e outros proventos.
Tudo aquilo era alimento sagrado que tinha que durar meses. A gordura era a matéria-prima na cozinha. Nada se fazia sem uma boa concha dela. E a "mistura" do dia a dia
era principalmente a carne de porco. Quando chegavam as visitas era lá de dentro das latas que a mãe retirava um lombo cheiroso, macio, que derretia.
Alguém da casa preparava o almoço pra toda aquela gente. E os bifes, o fígado e até os torresmos do próprio animal se juntavam às bacias de salada da horta e iam sendo devorados.Assim, sem dó, nem restrições. Depois vinha o café cheiroso, moído na hora. Café não podia faltar nunca.
Lavar a barrigada na beira do rio ou na caixa d'água também era obrigatório. Podia até ser feito no outro dia, mas não podia jogar fora. Algumas tripas eram aproveitadas pras linguiças.Como ninguém gostava de bucho, a barrigada praticamente todinha ia pro sabão.
Aí já é outra história.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Da macieira ao sete-capote
Bem em volta da casa havia um pé de maçã e um de pera, raquíticos, que a família cultivava. Uma forma, talvez, de permanecer a lembrança da terra natal, tão distante. Eram pequenas, sem gosto, assim como as uvas.
No pomar, propriamente dito, as bananeiras: banana nanica, maçã, são- tomé. As jabuticabeiras, os pessegueiros... Do verde e do amarelo, de um sabor e cheiro que continuo à procura, ainda depois de tantos anos.
A lavoura de laranjas não era comum naquela época, mas havia alguns pés no quintal. Um deles, de uma árvore grande, dava umas poucas laranjas deliciosas. Subíamos, então, bem no alto, depois da escola, e lá descascávamos, com as mãos, aquela delícia com gosto de abacaxi..
Bom era na época das mangas: rosa, coquinho, espada, bourbon, coração de boi. Ainda nem estavam maduras e nós as cutucávamos com a vara pra ver se caía alguma. Surpresa era, logo de manhã, encontrar uma no chão. Às vezes, a noite nos reservava esse presente.
Um pouco mais distante da casa, tinha o enorme pé de ingá. Umas favas compridas, marrons, com caroços brancos, um veludo. Mais acima ainda, quase na estrada de Monte Alto, os jambos, amarelos e redondos, quase sem sabor; os maracujás doces e azedos. E pasmem: os genipapos e cajamangas. Estas, como se fossem mangas espinhudas e ácidas, ainda vi por aí, mas os genipapos...
No meio do cipó, sob a sombra das árvores e barulhos dos insetos, na beira do rio,viam-se bolinhas vermelhas reluzindo.Eram os veludinhos. Nem sempre nos atrevíamos a apanhá-los. Ficavam na imaginação, como tantas outras da nossa infância.
Goiabeiras havia por toda parte: vermelhas, brancas. As boas e as bichadas, fácil de serem reconhecidas e escolhidas. Numa delas dormiam as galinhas. Eu gostava mesmo era de umas brancas, pequenininhas, que ficavam no meio do pasto, por onde eu passava, seguindo, descalça, as enxurradas do verão.
Sem esquecer dos pés de conde, das pinhas e das pindaívas arroxeadas e piramidais, lá dos lados da tia Assunta. Das jacas e esquisitos jatobás. Dos cajus vermelhos e amarelos. Os melhores eram os que roubávamos do quintal do Arturzinho!
Do outro lado da casa havia dois pés de sete-capote: bolinhas verde-claras, meio ácidas, gostosas e fáceis de apanhar, de árvore pequena e carregada. Era abaixar o galho e se fartar. Por que será eram sete- capotes?
E as limas (contavam que o nono chupava um balde delas de madrugada, sempre apanhadas por um dos netos), as mexericas, as tangerinas.
Depois os tamarindos e as seriguelas.
Registro os nomes, as formas e as cores das frutas da minha infância, na esperança de que eles não se percam, porque aqueles pés, frutas, cores e prazeres há muito tempo perderam o seu espaço, engolidos, provavelmente, pela extensão dos canaviais e das laranjas. Tipo exportação.
Sabores e cheiros, só os da memória!
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