quarta-feira, 6 de julho de 2011

Da macieira ao sete-capote




Bem  em volta da casa havia um pé de maçã e um de pera, raquíticos, que a família cultivava. Uma forma, talvez, de permanecer a lembrança  da terra natal, tão distante. Eram pequenas, sem gosto, assim como as uvas.

No pomar, propriamente dito, as bananeiras: banana nanica, maçã, são- tomé. As jabuticabeiras, os pessegueiros... Do verde e do amarelo, de um sabor e cheiro que continuo à procura, ainda depois de tantos anos.

A lavoura de laranjas não era comum naquela época, mas havia alguns pés no quintal. Um deles, de uma árvore grande, dava umas poucas laranjas deliciosas. Subíamos, então, bem no alto, depois da escola, e lá  descascávamos, com as mãos, aquela delícia com gosto de abacaxi..

Bom era na época das mangas: rosa, coquinho, espada, bourbon, coração de boi. Ainda nem estavam maduras e nós as cutucávamos com a vara pra ver se caía alguma. Surpresa era, logo de manhã, encontrar uma no chão. Às vezes, a noite nos reservava esse presente.

Um pouco mais distante da casa, tinha o enorme pé de ingá. Umas favas compridas, marrons, com caroços brancos, um veludo. Mais acima ainda, quase na estrada de Monte Alto, os jambos, amarelos e redondos, quase sem sabor; os maracujás doces e azedos. E pasmem: os genipapos  e cajamangas. Estas, como se fossem mangas espinhudas e ácidas, ainda vi por aí, mas os genipapos...

  No meio do cipó, sob a sombra das árvores e barulhos dos insetos, na beira do rio,viam-se  bolinhas vermelhas reluzindo.Eram os veludinhos. Nem sempre nos atrevíamos a apanhá-los. Ficavam na imaginação, como tantas outras da nossa infância.

Goiabeiras havia por toda parte: vermelhas,  brancas. As boas e as bichadas, fácil de serem reconhecidas e escolhidas. Numa delas dormiam as galinhas. Eu gostava mesmo era de umas brancas, pequenininhas, que ficavam no meio do pasto, por onde eu passava, seguindo, descalça, as enxurradas do verão.

Sem esquecer  dos pés de conde, das pinhas e das pindaívas arroxeadas e piramidais, lá dos lados da tia Assunta. Das jacas e esquisitos jatobás. Dos cajus vermelhos e amarelos. Os melhores eram os que roubávamos do quintal do Arturzinho!
Do outro lado da casa havia dois pés de sete-capote: bolinhas verde-claras, meio ácidas, gostosas e fáceis de apanhar, de árvore pequena e carregada. Era abaixar o galho e se fartar. Por que será eram sete- capotes?


E as limas (contavam que o nono chupava um balde delas de madrugada, sempre apanhadas por um dos netos), as mexericas, as tangerinas.
Depois os tamarindos e as seriguelas.


Registro os nomes, as formas e as cores das frutas da minha infância, na esperança  de que eles não se percam, porque aqueles pés, frutas, cores e prazeres há muito tempo perderam o seu espaço, engolidos, provavelmente, pela extensão dos canaviais e  das laranjas. Tipo exportação.

Sabores e cheiros, só os da memória!

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