quinta-feira, 7 de julho de 2011

Era dia de matar porco

Dia de matar porco era um evento.

Já na véspera, os preparativos: afiar as facas era ofício de homem.Meu pai o fazia com esmero. Ele mesmo usaria uma delas na hora fatal. Catar lenha seca (o fogão dentro da cozinha e o improvisado fora de casa não sossegavavam) ou colocá-las pra secar em cima da chapa quente era serviço das crianças, geralmente supervisionado pela mãe.Atrás da porta da cozinha já ficava uma porção delas, mas não daria conta.

Não podia, de forma alguma, deixar de avisar os vizinhos - duas ou três pessoas, normalmente parentes. " Vai lá, avisa a Idalina que amanhã vai matar porco. O Nico, também".

 Sempre vinha alguém pra ajudar.Ou na hora da matança, quando precisava de gente pra pegar o porco, colocá-lo sobre um estrado de madeira , limpá-lo  com água fervente e destrinchá-lo de vez, ou durante o dia todo, na lida com aquele animal feio, esquartejado sobre a mesa da varanda.

 No final do dia, as pessoas iam embora sempre com um pratinho na mão: um pedaço de carne boa, um naco de toucinho, um pouco de linguiça...Mesmo as famílias que não tivessem ajudado tinham direito  a uma lembrancinha, pequena que fosse, daquela iguaria. Daria uma boa  mistura da marmita do dia seguinte.

As crianças que iam pra escola na cidade se incumbiam de comprar o pão  e o ksuco ( que era tomado sem gelo), a soda pra fazer o sabão, e o fundamental: as tripas pra encher as linguiças, os codeguins..."Compra lá na venda do Bettine, e manda marcar", dizia minha mãe, atarantada.

Não era fácil matar porco, dar conta de tanta carne.Tudo tinha que ser feito num dia só, não havia geladeiras, freezers....Cuidar das carnes, temperar, fritar,moer, encher as linguiças, derreter as gorduras e encher as latas daquele líquido ( ficaria depois uma massa branca), que servia também pra armazenar  os lombos, suãs, costelas e outros proventos.

Tudo aquilo era alimento sagrado que tinha que durar meses. A gordura era a matéria-prima na cozinha. Nada se fazia sem uma boa concha dela. E a "mistura" do dia a dia
era principalmente a carne de porco. Quando chegavam as visitas era lá de dentro das latas que a mãe retirava um lombo cheiroso, macio, que derretia.

Alguém da casa preparava  o almoço pra toda aquela gente. E os bifes, o fígado e até os torresmos do próprio animal se juntavam às bacias de salada da horta e iam sendo devorados.Assim, sem dó, nem restrições. Depois vinha o café cheiroso, moído na hora. Café não podia faltar nunca.

Lavar a barrigada na beira do rio ou na caixa d'água também era obrigatório. Podia até ser feito no outro dia, mas não podia jogar fora. Algumas tripas eram aproveitadas pras linguiças.Como ninguém gostava de bucho, a barrigada praticamente todinha ia pro sabão.

 Aí já é outra história.

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