A missa dos domingos na igreja matriz era ponto de encontro pra ver as colegas e os parentes, na nossa cidadezinha do não-ter- muito-o-que-fazer.
Era principalmente lá que eu via a doce tia Amabile. Uma das irmãs mais velhas do pai, a tia chegava na cidade, arrumada e discreta sob a sombrinha, na costumeira charrete, puxada por cavalo da sua propriedade. Vinha na companhia da filha caçula (as outras já haviam casado), estacionavam o veículo ali bem próximo da tia Elvira, e, cabisbaixo, o animal esperava pela boa vontade das senhoras
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O marido e os filhos vinham a cavalo. Não me recordo de vê-los na charrete. Charrete era algo talvez muito feminino, que não combinava nada, nada com tio Ângelo. Forte, grandalhão e carregado de tatuagens no braço, o tio despertava em nós, crianças, um certo receio, tal força ele imprimia quando nos cumprimentava. Chegava a entortar o braço da sua presa, e só soltar após alguns ais. Era fácil encontrá-lo nos campos de bocha, na qual era especialista, no bar do tio Severino.
Às vezes visitávamos os tios no sítio onde moravam. Era garantia de muito prazer. A casa era grande, alta, suntuosa, até. Tinha móveis escuros, quadros nas paredes, mas o que me chamava mais a atenção era o relógio. Um cuco lindo e incansável na parede de entrada na sala de visitas. Havia também uma mesa comprida na copa, que me atraía. Era lá que tomávamos fartos cafés recheados de doces e queijo feito em casa. (Cheguei mesmo a esconder sob a manga fofa do meu vestido boas fatias do delicioso quitute para comer mais tarde).
Mas do que gostávamos mesmo era de desbravar os quintais. A verdade era que como na casa não havia crianças, eles eram repletos não só de frutas, mas de quinquilharias que serviam pra gente brincar: latinhas, vidros, madeiras, tudo que pudesse compor nossas brincadeiras quando chegássemos em casa.. E saíamos de lá carregadas, cansadas, na certeza de que o passeio tinha rendido.
Vez ou outra, no fim da tarde, avistávamos, longe, os primos, montados em seus belos cavalos cobertos por uma capa, se achegando a nossa casa. Traziam baldes cheios de favo de mel que haviam acabado de tirar!
Não me lembro de alguma conversa especial com a tia, nem mesmo sei o que ela pensava. Mas sua imagem doce e serena continuam se misturando ao mel e às badaladas do cuco das minhas lembranças!