segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Cidade

Não gostava de morar no sítio. Tudo ficava mais difícil longe da cidade, onde as coisas aconteciam: a missa dos  domingos, a praça pra fazer o footing, o menino bonito, as pessoas, o cinema (Mazzaropi era o máximo: Ton e Jerry, a pantera cor-de-rosa do trailer, ainda mais ), a padaria, o bar do Severino, o bazar da Luzia, o da Marli. A escola, o ônibus de ir pra escola, pra Jaboticabal ou Monte Alto; o dentista, os bailes (sim, eles aconteciam de vez em quando).

 Tinha inveja de quem morava na cidade. Que delícia deveria ser poder  levar as colegas em casa ou ir a casa delas, como as meninas da cidade faziam. Sem andar a pé ou esperar carona. E poder voltar quando desse vontade. Sem ter que depender da casa tia Elvira (e da Nélia), da Ana e da dona Cida.

 Tia Elvira, sempre muito fina e elegante, acolhia toda a sobrinhada do sítio. Era lá o ponto de encontro pra esperar carona de condução, pra dar um tempinho até chegar a hora da missa, pra filar um almoço (batata-doce frita, bifes bem arrumadinhos na travessa), pra posar, quando precisasse ( dormi lá, no sofá do quartinho de costura, um ano inteiro), enfim, lá era nossa segunda casa. Acho que até abusávamos da boa vontade dela e da norinha. Às vezes eu tentava colaborar, ajudando na cozinha, no armazém, ou na arrumação da casa (o cobertor marrom, em forma de laço aos pés da cama, finalizava a arrumação do quarto). Ou bordando lencinhos de nariz pra ela e pro tio, com quem ela mantinha um casamento invejável. EJ  (uma letra um pouco acima da outra) eu desenhava com muito carinho no ponto cruz que aprendera na escola.


Dia de baile era uma tortura (havia os cartazes de propaganda nos bares e até nas cidades vizinhas com o nome da banda, o tipo de traje). A procura dos modelos, das costureiras iniciava, eu queria ir, e não tinha ninguém da família que fosse. E moça de família não deveria ir sozinha. Aliás, não deveria ir de jeito nenhum, na opinião do pai. E eu ia. Meio infeliz, mas ia. Aí o jeito era ficar na casa da  amiga Ana. E a dona Cida, sempre animada, junto com outras mães nos aguardava nas cadeiras desconfortáveis do clube taiaçuense , observando os mocinhos, as cubas-livres e o chá de cadeira a que estávamos sujeitas.


Sempre me incomodava  ter que depender dos outros (posso posar na sua casa? será que vão me convidar pra almoçar? será que não estou atrapalhando?...) pra coisas tão simples, do dia a dia. E ainda pior, conviver com certo preconceito de pessoas que diziam "Fulana? Ela é de sítio!"

Ah, um dia ainda iria morar na cidade!

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