segunda-feira, 20 de agosto de 2012

VERMELHA



Era vermelha e branca a camioneta Ford, anos 70. O pai tirou zerinho na agência em Jaboticabal, com financiamento oferecido aos agricultores. Da mesma forma, já tinha comprado tratores e outros implementos pro sítio. Carro, assim, de verdade, era o primeiro. Ia dar pra passear, ir à cidade, bem mais rápido e "chique".

 O motorista era o irmão, único filho homem e braço direito nas coisas do sítio. Não quis estudar além da quarta série "Nem precisa, vou ser como o pai", ele dizia, remetendo que o pai tinha se saído bem, mesmo não tendo estudado muito.

Lembro dele ainda muito garoto manobrando o primeiro trator pelas roças de milho, café, algodão...Arar, adubar a terra... Depois um trator mais novo, outro, até que chegou a camioneta. Parecia que ele não queria outra coisa, soberano, na direção, que lhe dava um charme, na cidadezinha sem muitas novidades. Sempre com o vidro aberto, colocava o cotovelo pra fora e ia  dando "dia" e "tarde" a quem encontrasse naquela estrada de poeira de secar a garganta e doer os olhos. Ou um olhar mais ousado pras moças bonitas. Era lindo o irmão!

E o carro, que era da família, na realidade era dele. Pra mim, a obrigação de lavar, secar e dar um bom brilho pelo menos a cada quinze dias. Mas algumas coisas eram mais ou menos regra: levar todo mundo pra missa das oito aos domingos; trazer de volta lá pelas onze, quando ele parava o jogo se sinuca no bar do tio; levar os irmãos na praça fazer o footing, à noite aos sábados e domingos e voltar depois do cinema; levar o pai na cidade, buscar os parentes, visitar parentes, levar alguém ao médico...É lógico que  sempre ocorria alguma confusão: um não chegava, outro se adiantava, mas a verdade é que estávamos sempre na dependência dele pras nossas indas e vindas.

Com o tempo, o trabalho aumentou, vieram os filhos, o irmão tinha que dar conta de tantas coisas, e resolveram arranjar mais um motorista. Foi aí que o pai mais uma vez recorreu ao irmão. Mas dessa vez, pra ensinar a irmã a dirigir. Naquela época,  não era comum as moças dirigirem um carro. Inda mais uma camionetona!

 O mano largava mais cedo do trabalho pra tentar me dar as aulas. Em meio a árvores e vacas sonolentas, fui me familiarizando com primeira, segunda, freio, embreagem... Acho que era muito mais fácil trabalhar duro, no pesado, do que me fazer aprender aquilo. 

 Na vida curta de sessenta anos, o irmão dirigiu tratores, carros, mas sobretudo dirigiu bem sua vida, dedicou-se com prazer à terra, fez ela prosperar; dedicou-se à família e ao cuidado incondicional à  nossa mãe.

Para meu querido irmão, Santo, com saudade e gratidão, neste mês do seu aniversário!



















Um comentário:

  1. Não sei se foi de propósito, mas o silêncio no final do texto caiu muito bem.
    É preciso dar aquele suspiro.

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