quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Tia

TIA

Quase não tive contato com a irmã mais velha, onze anos mais que eu. Quando ela casou, bastante jovem, e foi morar em outra cidade, eu  tinha lá meus nove ou dez anos apenas. De forma que a minha lembrança dela é  maior depois do seu casamento.
E do casamento também.
A tia Elvira, que era uma costureira de mão cheia, fez o vestido lilás muito bonito, com cauda curta, bem ajustado na cintura, que caiu muito bem ao seu porte alto e magro. Depois um jantar em casa, bem simples, feito pela família, com poucos convidados, pois a nona estava  doente. E a mana optou casar mais cedo pra acompanhar o marido que estava se mudando de cidade.
 Teve carne-assada, arroz de forno (a lenha) com muito queijo, bebida e festa, mesmo, alegria pelo casamento da primeira filha, que levava o nome das duas avós, Antonia e Joana. Sobre isso, parece que ela não gostava muito, não, e era mesmo chamada pelo apelido.
Em casa ficou sempre a saudade da filha que estava longe, embora não fosse tão longe assim- talvez uma hora, hoje, de carro, mas naquela época as condições eram outras. A comunicação eram as cartas e uma ou duas visitas por ano. Lembro da primeira vez que visitamos a mana em sua casa no sítio dos sogros. Chegamos, o pai, a mãe e eu, de manhãzinha , de carro alugado, após duas ou três baldeações rodoviárias. Ela nos recebeu debaixo  das muitas árvores que havia próximo a casa. E foi um encontro muito emocionante. Acho que foi a primeira vez que vi a mãe chorar de alegria.
Alguns meses depois (o anticoncepcional ainda não existia), numa das cartas, havia a boa notícia....a mana estava grávida! Nem se podia falar muito no assunto, mas a sensação foi inesquecível. E quando  a criança linda e rechonchuda nasceu, então...a descoberta de um amor diferente! Pegar no colo, ninar, dar e ganhar carinho à vontade...
Definitivamente, ser tia era muito bom, já sabia eu aos dez anos. A longa espera pra chegada do próximo encontro era quase uma tortura. Será que eles vêm pro Natal? Pra Páscoa? Mas acompanhávamos o desenvolvimento da sobrinha pelas cartas "já está engatinhando", dizia a mana. "Agora isso, agora aquilo..."
E quando chegava, a irmã ia mostrando os vestidos que tinha feito pra filha. Caprichados, como sempre. Um de lese, outro de babado com passamanaria... Um laço novo, um sapatinho...Era uma festa  e todos curtíamos muito aquela primeira experiência de tios, de avós...
A irmã, na sua vida curta de sessenta anos, sempre me passou a imagem de uma pessoa boa, de fé, de esperança, de rezas pela felicidade dos filhos. Foi assim que eu a percebi construindo, desde muito jovem, a sua bonita família. "Deu tudo certo, mana! Valeram as suas orações!".

Para a querida irmã Nena, com muita saudade e gratidão, hoje, que seria o seu aniversário!










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