quarta-feira, 20 de junho de 2012

O pulo do gato


Ainda que o pai fosse bastante conservador em relação a algumas ideias,  parece que era uma pessoa muito evoluída, à frente da maioria da sua época. Gostava do progresso.

Se a mãe quisesse, por exemplo, reformar a casa, ele não arranjava desculpa e ia logo arrumando os pedreiros, alguém que entendesse da coisa. Tanto que a privada  de buraco, no quintal, e o banho de chuveiro manual se transformaram, com o tempo, num confortável  banheiro no interior da casa, com chuveiro de  água encanada e tudo. De uma casinha tímida e simples das velhas fotografias, pudemos desfrutar de uma casa grande e bonita.

Aliás, ele foi um dos precursores da colocação da água encanada na região. Enquanto na cidade se
puxava água do poço, na casa dele, no sítio, ela já vinha, limpa e majestosa, correndo pelos canos, numa tecnologia invejável para a época. Até hoje se encontra no pomar da casa a caixa de depósito de água com a data inscrita: 1960.

 A luz elétrica também não demorou a chegar lá, o que era raro na região rural. E logo vieram a geladeira, a televisão (ah, essa não deu prazer, só passava pouca vergonha, ele dizia). E se aposentaram o ferro de passar (de brasa), o escovão, as lamparinas...

Depois veio o telefone. E já havia os tratores (sempre tinha o mais moderno), a camioneta linda, vermelha, a qual fez questão que eu aprendesse a dirigir. Uma moça dirigir uma camioneta aos dezoito anos não era comum nos anos setenta!

Mas o que sempre me chamou a atenção foi a sua ligação com o conhecimento. Insistia que as pessoas tinham que estudar. E foi com o coração apertado que deixou as filhas saírem de casa pra estudar fora! Ele, embora formalmente tivesse estudado pouco (cinco anos, na Itália, a convite de um padre), continuava a perseguir a aprendizagem. Usava meus livros do ginásio para  rever a geografia. Um deles, de capa de plástico floreado de vemelho, ficava no seu criado-mudo de cabeceira. E quando tomava a lição dos filhos reclamava que o estudo aqui no Brasil era muito fraco. "No ginasial e ainda não sabe os cinco continentes? Mamma mia!"

Passava horas da noite lendo romances ("E o Vento Levou "e "Os Três Mosqueteiros" eram os seus favoritos) e os contava de manhã, emocionado, para quem quisesse ouvir. E, importante, era muito crítico: se não gostava, escondia à chave ou punha fogo no livro. Ninguém podia ler aquelas coisas indecentes ou que " falavam mal de Deus".

Porém, o que distraía mesmo o pai era o velho rádio. De manhã  e principalmente à noite, sentava-se diante dele e se sentia, mais que nunca, participante do mundo. O Repórter Esso, a CBN ( as vozes de Lucas Mendes e Sandra Passarinho eram familiares pra mim), a Bandeirantes e o famoso O Pulo do Gato, apresentado por José Paulo de Andrade. Gostava das notícias internacionais, de política (era de extrema direita- malufista convicto), de tudo. Depois comentava as novidades, e ai de quem o contrariasse.  "Imagina não acreditar que o homem foi à Lua", comentava, mais uma vez indignado.



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