DE CHAPÉU
Para o meu pai e para todos os pais que deixam eternizados, nos filhos, a gratidão e o gosto de quero mais, como as balas de hortelã.
O pai gostava do conhecimento e do progresso.
"1960" é a inscrição que está até hoje na caixa da água encanada, que substituiu o velho poço, de corrente e balde, no sítio Bela Vista. Depois veio a luz elétrica, a casa mais confortável,com banheiro interno, o carro de passeio...
Acompanhava, diariamente, no rádio, as notícias nacionais e internacionais: o petróleo, o café, o preço das sacas de feijão, da arroba de gado, mas o que o deslumbrou, de verdade, foi a viagem do homem à lua."Porca miséria! Não acreditar que o homem pisou na lua?" dizia inconformado com com quem duvidava do feito, nos idos dos anos sessenta."Tem até fotografia!.Mamma mia!"
Embora tivesse frequentado pouco tempo a escola, o pai continuava se aprimorando e insistia que as pessoas tinham que estudar. Usava meus livros do ginásio para rever a geografia e matar saudades da terra natal. Um deles, de capa de plástico floreado de vermelho e verde ficava no seu criado-mudo da cabeceira. "Tá vendo essa bota? Bem aqui é o povoado onde eu nasci, Treviso" dizia, apontando o lugar no mapa, o que despertava em nós fascínio e desejo enorme de conhecer aquele lugar que a família deixou, mas que jamais se arrependeu "No Brasil não tem guerra", dizia convicto, remetendo-se à Primeira Guerra Mundial, que viu de perto.
Passava horas da noite lendo romances e os contava de manhã, emocionado com os mosqueteiros, com os conflitos de "E o Vento Levou", para quem quisesse ouvir. E, se não passassem pela sua censura, escondia os livros à chave ou queimava. "Os Meninos da Areia", ganhado do genro paulistano, virou cinza, numa tarde de calor, lá no fogão a lenha, assim como o Erich Daniken. Ninguém podia ler "aquelas coisas indecentes" ou que " falavam mal de Deus".
Sitiante imigrante e muito econômico, o pai se orgulhava em revelar que possuía a conta número 1 da Caixa Econômica de Taiaçu, a cidade que o acolheu e onde formou sua família. Tinha lá um bom dinheiro guardado. "É pra quando ficar doente", dizia. E pra cada neto que nascia, abria uma pequena poupança e entregava aos pais o número da caderneta. Deu tempo de acolher os onze! Ele olhava os rendimentos, os juros... Acho que foi o único presente material que se permitiu dar aos netos em vida.
Mas do que eu queria mesmo falar é do cerimonial que acontecia toda vez que ele ia à cidade. Ou pra ir à Caixa, ou pra cortar o cabelo (a barba ele fazia em casa com a navalha), pra ir no contador ou tomar o ônibus que o levaria a Jaboticabal. Todas as vezes passava no correio e na casa da irmã, a doce tia Elvira, pra tomar um café e papear em italianês.
Então, ele se vestia com roupa social que a mãe deixava sobre a cama. Normalmente eram calças escuras e camisas claras de mangas longas, bem passadas a ferro de brasa. Colocava os sapatos engraxados e não saía sem três acessórios importantíssimos: o relógio dourado, o guarda-chuva e...o chapéu. De feltro,cinza, sempre bem escovado. Ficava mesmo muito elegante, o pai, no seu porte alto e magro.
E lá ia o seu Mário, a pé, cortando caminho. Eram, na realidade, três quilômetros de muito prazer. Ele aproveitava pra ver se o sítio estava bem, se as caixas de água do gado estavam limpas, se havia muito mato, se havia algum foco de formigas... Se o vizinho tinha consertado a cerca....
Ficávamos nós, em casa, esperando o pai voltar. Às vezes, só à noitinha avistávamos, lá longe, o vulto se aproximando. Com seu chapéu, seu guarda-chuvas... Trazia as notícias da cidade, alguma correspondência que apanhara no correio e sempre, sempre, um bom punhado de balas de hortelã!
Acho que o pai gostava, mesmo, era de amor.
Que bom que voltaram as historias!! Quero mais historias do Vô....
ResponderExcluirLinda história! Vou ler os outros posts, tenho certeza q vou adorar!
ResponderExcluirQue prazer saber que você gostou do meu texto, Bruna! São memórias muito importantes que eu gosto de registrar pra não "ter perigo" de se perderem. E é uma forma também de matar a saudade... bj
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