DAS BRINCADEIRAS
"O menino é o pai do homem"- Machado de Assis, in Dom Casmurro
Bonecas e bolas eram os brinquedos, comprados, que a gente conhecia. Vinham dos pequenos bazares da cidade, ou dos oveiros.
Puxada por um cavalo, a carroça dos oveiros passava pelos sítios apinhada de mercadorias. Compravam das mulheres os ovos de galinha (e as galinhas também) que elas iam juntando nas bacias, formando quase uma pirâmide. Dinheiro de ovo era dinheiro de mulher, e elas ficavam muito à vontade pra negociar com o que os negociantes ofereciam. De agulha e linha a joias e porcelanas. Doces, balas...Mas o que enchiam meus olhos eram as bonecas de plástico roseadas, que dava pra pôr ou tirar as pernas, os braços, e não tinham cabelo.
Uma vez por semana ou quinzena, avistávamos lá longe seu Zé de Almeida, depois seu Toninho Gil, chegando vagarosamente com a carroça cheia de surpresas e delícias. Era um momento feminino de mulheres, crianças, de coisas despreocupadas, sem pensar muito, ali ao redor.
Fora as bonecas, a gente brincava de casinha. Montávamos a brincadeira no pomar, na sombra das bananeiras. Era uma encenação longa, que envolvia muitos afazeres. Primeiro a pesquisa no quintal à cata dos utensílios: as latas de óleo Zílá, de massa de tomate, de sardinha se transformavam em panelas, xícaras e vasos. Às vezes, trazíamos relíquias de outros quintais menos povoados por crianças, como o da tia Amábile. Vínhamos de lá com a cozinha quase pronta.
Fazíamos as estantes de vários andares com tábuas de madeira sustentadas por latas, todas do mesmo tamanho. Colocávamos os pratos, as panelas... o vaso com flores. Varríamos o terreno, levávamos as nossas bonecas, e as espigas de milho se transformavam rapidinho em visitas, em avô, avó.... Folhas picadas no fogo de verdade, e dávamos de comer aos nossos filhos, encostadas no tronco, meio a cachos de banana....Lá ficávamos longas manhãs, até que a mãe chamava para o almoço.
Tinha dias de mais aventura e a gente saía pra caçar passarinhos. Então, fabricávamos espingardas com bambus, escolhidos a dedo no quintal. A ponta da "arma" era aberta com dois ou mais cortes para que ficasse flexível a entrada e saída do "projétil", que se acomodava no nó da madeira. Enchíamos o embornal de macaúvas. Se a espingarda não ia bem, valia usar o estilingue. Não me recordo de alguém ter acertado em algum anu ou outro passarinho, felizmente! Mas era um desafio e tanto!
Algumas das pequenas caixas de água, que o pai deixava sempre limpas, reservadas aos animais, ficavam distantes de casa, e, nos finais de semana, a gente aproveitava para um momento meio proibido, de "nadar" sem roupas, no descampado, de conversar segredos sem perigo de que alguém ouvisse.
Sonho, mesmo, era andar de bicicleta, a que tínhamos acesso somente quando o primo Jesus aparecia. Ele dava uma voltinha com cada um de nós na garupa. Depois ia embora pra Monte Alto e deixava a gente com água na boca! Do vento cortando a cara, do friozinho na barriga do sobe e desce, e da certeza de que havia um mundo além daquele que a gente vivia.
Para as primas Helena e Antonieta, parceiras de uma infância feliz, cheia de liberdade e imaginação.
abril/2012
não sabia que vc nadava na caixa dágua... jura??
ResponderExcluir