Da nossa casa, ao alto, numa visão exuberante, avistavam-se quase que totalmente as três outras casas da propriedade. Nelas moravam os colonos que trabalhavam no sítio. Na verdade, eram quase todos parentes, vez ou outra algum desconhecido.
A última era a casa da tia Assunta. Magrinha e falante, a tia dizia sempre que não tivera sorte na vida. Perdera o marido muito cedo, deixando-a com os filhos para criar. Antes da morte o sofrimento pela bebida, as separações, depois a doença. O nascimento de filhos gêmeos por duas ou três vezes, a morte de filho pequeno, a morte da filha moça...
Mas da casa da tia Assunta guardo as mais queridas lembranças. Era lá que ia posar muitas vezes, brincar com as primas, e principalmente ouvir histórias. Ela adorava contar sobre a Itália, sobre a viagem de navio...Sobre as notícias policiais que ouvia todos os dias no rádio, as histórias das revistas, mesmo as religiosas (Edições Paulinas) davam assunto. Atiçava não só a minha imaginação, como a reflexão. Era crítica ferrenha do aborto e não perdoava alguém que pudesse ter provocado.
Adorava crianças, elogiava, todas eram lindas...Enfim, a tia preenchia em mim alguma coisa que eu gostava e só lá encontrava. Observava como ela tratava os filhos, como se virava pra cuidar de todos. A hora da roça do Luis e do Pedrinho, a roupa limpa da Ana e da Helena, os dengos pra Antonieta, o amor a todos eles. Lembro da macarronada vermelhinha de massa de tomate que ela colocava na bacia de alumínio e a gente experimentava quando vinha da missa aos domingos. Dos chuchus pequeneninhos que cozinhava na chaleira do fogão de lenha quando alguém dizia que estava com vontade de alguma coisa boa. Senão, eram as fatias de pão amanhecido que embebia no leite com muito açúcar, fritava e fazia a gente lamber os beiços.
O terreiro limpo, o galinheiro, o poço de água. Bacias grandes de roupa de molho no sol, só esperando as mãos-máquina da dona. E a sombra do pé de jaca, de manga. As jaboticabeiras...
Nas outras duas casas, menores e menos sombreadas, separadas por um riozinho e uma ponte de terra, moravam os filhos casados da tia Assunta: o Bem e o Nico. Trabalhavam eles todos no sítio, com trabalho fixo ou como meeiros.
Nico tinha uma história muito bonita de amor à família e à terra. Mais velho dos filhos era arrimo de família. Cuidara do pai doente, aprendera a dar injeções e exercia a função sempre que precisasse (hoje ela não pode, confidenciou um dia minha mãe ao pé do seu ouvido,- ela ficou mocinha, referindo-se à injeção que eu teria que tomar por causa da hepatite, aos treze anos).
O primo olhava sempre pro céu. Será que vai chover?, dizia, abaixando para trás o chapelão de palha na tentativa de advinhar a sorte com as chuvas. Não queria de jeito nenhum perder a sua bela plantação de tomates, de algodão, de milho...Tinha dado tanto trabalho! E gasto, então! A Idalina é que sabia.
E todos os dias ele ouvia, paciente, enrolando seu cigarro de palha, as histórias que o pai contava, logo cedo, depois de tirar o leite e tomar um café na nossa cozinha, onde ele entrava sem cerimônias. Ou no fim da tarde, depois da pinguinha, que descia num gole só.
Eram os vizinhos, na verdade, grandes amigos. Referências fundamentais na minha vida.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Cidade
Não gostava de morar no sítio. Tudo ficava mais difícil longe da cidade, onde as coisas aconteciam: a missa dos domingos, a praça pra fazer o footing, o menino bonito, as pessoas, o cinema (Mazzaropi era o máximo: Ton e Jerry, a pantera cor-de-rosa do trailer, ainda mais ), a padaria, o bar do Severino, o bazar da Luzia, o da Marli. A escola, o ônibus de ir pra escola, pra Jaboticabal ou Monte Alto; o dentista, os bailes (sim, eles aconteciam de vez em quando).
Tinha inveja de quem morava na cidade. Que delícia deveria ser poder levar as colegas em casa ou ir a casa delas, como as meninas da cidade faziam. Sem andar a pé ou esperar carona. E poder voltar quando desse vontade. Sem ter que depender da casa tia Elvira (e da Nélia), da Ana e da dona Cida.
Tia Elvira, sempre muito fina e elegante, acolhia toda a sobrinhada do sítio. Era lá o ponto de encontro pra esperar carona de condução, pra dar um tempinho até chegar a hora da missa, pra filar um almoço (batata-doce frita, bifes bem arrumadinhos na travessa), pra posar, quando precisasse ( dormi lá, no sofá do quartinho de costura, um ano inteiro), enfim, lá era nossa segunda casa. Acho que até abusávamos da boa vontade dela e da norinha. Às vezes eu tentava colaborar, ajudando na cozinha, no armazém, ou na arrumação da casa (o cobertor marrom, em forma de laço aos pés da cama, finalizava a arrumação do quarto). Ou bordando lencinhos de nariz pra ela e pro tio, com quem ela mantinha um casamento invejável. EJ (uma letra um pouco acima da outra) eu desenhava com muito carinho no ponto cruz que aprendera na escola.
Dia de baile era uma tortura (havia os cartazes de propaganda nos bares e até nas cidades vizinhas com o nome da banda, o tipo de traje). A procura dos modelos, das costureiras iniciava, eu queria ir, e não tinha ninguém da família que fosse. E moça de família não deveria ir sozinha. Aliás, não deveria ir de jeito nenhum, na opinião do pai. E eu ia. Meio infeliz, mas ia. Aí o jeito era ficar na casa da amiga Ana. E a dona Cida, sempre animada, junto com outras mães nos aguardava nas cadeiras desconfortáveis do clube taiaçuense , observando os mocinhos, as cubas-livres e o chá de cadeira a que estávamos sujeitas.
Sempre me incomodava ter que depender dos outros (posso posar na sua casa? será que vão me convidar pra almoçar? será que não estou atrapalhando?...) pra coisas tão simples, do dia a dia. E ainda pior, conviver com certo preconceito de pessoas que diziam "Fulana? Ela é de sítio!"
Ah, um dia ainda iria morar na cidade!
Tinha inveja de quem morava na cidade. Que delícia deveria ser poder levar as colegas em casa ou ir a casa delas, como as meninas da cidade faziam. Sem andar a pé ou esperar carona. E poder voltar quando desse vontade. Sem ter que depender da casa tia Elvira (e da Nélia), da Ana e da dona Cida.
Tia Elvira, sempre muito fina e elegante, acolhia toda a sobrinhada do sítio. Era lá o ponto de encontro pra esperar carona de condução, pra dar um tempinho até chegar a hora da missa, pra filar um almoço (batata-doce frita, bifes bem arrumadinhos na travessa), pra posar, quando precisasse ( dormi lá, no sofá do quartinho de costura, um ano inteiro), enfim, lá era nossa segunda casa. Acho que até abusávamos da boa vontade dela e da norinha. Às vezes eu tentava colaborar, ajudando na cozinha, no armazém, ou na arrumação da casa (o cobertor marrom, em forma de laço aos pés da cama, finalizava a arrumação do quarto). Ou bordando lencinhos de nariz pra ela e pro tio, com quem ela mantinha um casamento invejável. EJ (uma letra um pouco acima da outra) eu desenhava com muito carinho no ponto cruz que aprendera na escola.
Dia de baile era uma tortura (havia os cartazes de propaganda nos bares e até nas cidades vizinhas com o nome da banda, o tipo de traje). A procura dos modelos, das costureiras iniciava, eu queria ir, e não tinha ninguém da família que fosse. E moça de família não deveria ir sozinha. Aliás, não deveria ir de jeito nenhum, na opinião do pai. E eu ia. Meio infeliz, mas ia. Aí o jeito era ficar na casa da amiga Ana. E a dona Cida, sempre animada, junto com outras mães nos aguardava nas cadeiras desconfortáveis do clube taiaçuense , observando os mocinhos, as cubas-livres e o chá de cadeira a que estávamos sujeitas.
Sempre me incomodava ter que depender dos outros (posso posar na sua casa? será que vão me convidar pra almoçar? será que não estou atrapalhando?...) pra coisas tão simples, do dia a dia. E ainda pior, conviver com certo preconceito de pessoas que diziam "Fulana? Ela é de sítio!"
Ah, um dia ainda iria morar na cidade!
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Gente nova
E o irmão decidiu casar. A noiva, bonita e simpática, morava na cidade. "Será que ela vai se acostumar no sítio?"- era a preocupação do pai e da mãe. Certo que nem havia tanta diferença entre a cidadezinha e o sítio, confortável e tal, mas muita coisa era diferente, com certeza.
Outras grandes preocupações não havia. Era moça de boa família, de gente simples, de bons costumes. De forma que foi então aprovada pra casar. E detalhe: morar na mesma casa dos sogros. Não haveria problema, a casa seria dividida em duas. Uma cozinha pra cada um (sim, cada um deve ter o seu fogão- dizia a matriarca), uma sala, os quartos...Apenas o banheiro era de uso comum. E o quintal. E os serviços.
Sim, porque logo foram se dividindo as atividades: você faz isso, eu faço aquilo. O varreção dos quintais duas vezes por semana era da nora. A lavagem da área externa era em conjunto. Tratar dos porcos era da sogra, a norinha ficava com o dar milho pras galinhas, descobrir os ninhos, moer quirela.. Lavar os latões de leite, os baldes era serviço de todos os dias. Regar as plantas, cuidar da horta, receber e agradar as visitas, assistir tv todos os dias juntos no mesmo horário...Dividir abóboras e vai e vens.
Às vezes (só às vezes) eu percebi a cunhada entristecida. A saudade de casa, da mãe, da liberdade da vida de solteira se anunciara nos primeiros tempos, mas foi sendo aos poucos superada . E a Mércia foi se adaptando à nova vida, aos costumes da família que agora também era sua.
Eu gostava muito de ter na família uma pessoa jovem (as irmãs já não moravam em casa), quase da minha idade, com quem pudesse conversar, contar coisas, fofocar... Minha vida ficara bem mais emocionante. E depois poder curtir bem de perto sua primeira gravidez, o sobrinho (a quem sugeri o nome). Depois outro...
Ver a cunhada se integrar àquela vida que era só nossa, batalhar pelos mesmos objetivos e pela terra querida foi motivo de muito orgulho para todos nós. Definitivamente, o irmão fizera uma boa escolha!
.
Outras grandes preocupações não havia. Era moça de boa família, de gente simples, de bons costumes. De forma que foi então aprovada pra casar. E detalhe: morar na mesma casa dos sogros. Não haveria problema, a casa seria dividida em duas. Uma cozinha pra cada um (sim, cada um deve ter o seu fogão- dizia a matriarca), uma sala, os quartos...Apenas o banheiro era de uso comum. E o quintal. E os serviços.
Sim, porque logo foram se dividindo as atividades: você faz isso, eu faço aquilo. O varreção dos quintais duas vezes por semana era da nora. A lavagem da área externa era em conjunto. Tratar dos porcos era da sogra, a norinha ficava com o dar milho pras galinhas, descobrir os ninhos, moer quirela.. Lavar os latões de leite, os baldes era serviço de todos os dias. Regar as plantas, cuidar da horta, receber e agradar as visitas, assistir tv todos os dias juntos no mesmo horário...Dividir abóboras e vai e vens.
Às vezes (só às vezes) eu percebi a cunhada entristecida. A saudade de casa, da mãe, da liberdade da vida de solteira se anunciara nos primeiros tempos, mas foi sendo aos poucos superada . E a Mércia foi se adaptando à nova vida, aos costumes da família que agora também era sua.
Eu gostava muito de ter na família uma pessoa jovem (as irmãs já não moravam em casa), quase da minha idade, com quem pudesse conversar, contar coisas, fofocar... Minha vida ficara bem mais emocionante. E depois poder curtir bem de perto sua primeira gravidez, o sobrinho (a quem sugeri o nome). Depois outro...
Ver a cunhada se integrar àquela vida que era só nossa, batalhar pelos mesmos objetivos e pela terra querida foi motivo de muito orgulho para todos nós. Definitivamente, o irmão fizera uma boa escolha!
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quinta-feira, 23 de agosto de 2012
De mala e cuia
Para a irmã Ninim
Dos cinco filhos, lá em casa, apenas as duas mais novas, eu e Ana (Ninim), estudamos além dos quatro anos do primário.
Embora o pai tivesse muito gosto que os filhos estudassem, os mais velhos logo cedo foram para o trabalho. A ajuda na lavoura era fundamental pra família naquela época de economia. Além disso, a cidade só oferecia o Curso Primário, de forma que quem quisesse estudar um pouco mais, tinha que se locomover pra outras cidades, e, lógico, enfrentar desafios. Na realidade, contavam-se nos dedos as pessoas que continuavam os estudos naqueles finais de anos sessenta, principalmente nas cidades pequenas do interior.
E foi assim, de coragem, a atitude da mana, a primeira da família a procurar caminhos diferentes de trabalho, de jeito de viver, deixar a casa cheia e seguir sozinha. Transporte pau de arara nos anos iniciais até a cidade vizinha; casa de parentes pra frequentar o Curso Normal em cidade mais distante.
Não foi um trabalho pesado, como o dos irmãos, mas com certeza não foi nada fácil a escolha dela.
Aos dezoito, a vinda a São Paulo.
O trabalho, a vida econômica independente, convívio com pessoas "pra frente", como dizia o pessoal do interior, ao se referir aos que moravam na capital. Enfim, tudo novo também pra família conservadora, aninhada no casarão de muita gente, fartura e sol.
Mas a mana deu conta de tudo e nos visitava de vez em quando, levando pra casa notícias da capital, ideias novas... Foi ela quem me presenteou com meu primeiro sutiã. Na realidade, eram dois: lindos, de bojo, um azul claro de bolinha branca, outro rosa xadrezinho.Eles enfeitaram e sustentaram, por muito tempo, não só meu corpo, mas também minha autoestima. Com a mana e o cunhado, meus primeiros contatos com São Paulo. "Girassóis da Russia", no cinema do centro, piqueniques no campo da USP, a primeira vez a Santos conhecer o mar.
Assim a mana passou a ser referência pra mim, cinco anos mais nova, desde muito cedo. Achava-a inteligente, corajosa e, cá pra nós, bem feminista pra época: direitos das mulheres, liberdade de pensamento, de comportamentos. Surpreendeu todo mundo, quando, por ocasião do seu casamento, resolveu não acrescentar ao seu o sobrenome do marido.
E, ainda sobre o casamento: o noivo confessou tranquilamente ao padre, no altar da cidadezinha, que não havia feito a primeira comunhão. Ah era muito modernidade, e eu adorava!
De forma que quando chegou a minha vez de decidir a vida, tudo estava mais fácil. A mana já havia aberto muitos caminhos!
Obrigada, mana querida, parabéns pelos seus setenta anos. Tenho muito orgulho de você e sempre te serei grata!!!!
Dos cinco filhos, lá em casa, apenas as duas mais novas, eu e Ana (Ninim), estudamos além dos quatro anos do primário.
Embora o pai tivesse muito gosto que os filhos estudassem, os mais velhos logo cedo foram para o trabalho. A ajuda na lavoura era fundamental pra família naquela época de economia. Além disso, a cidade só oferecia o Curso Primário, de forma que quem quisesse estudar um pouco mais, tinha que se locomover pra outras cidades, e, lógico, enfrentar desafios. Na realidade, contavam-se nos dedos as pessoas que continuavam os estudos naqueles finais de anos sessenta, principalmente nas cidades pequenas do interior.
E foi assim, de coragem, a atitude da mana, a primeira da família a procurar caminhos diferentes de trabalho, de jeito de viver, deixar a casa cheia e seguir sozinha. Transporte pau de arara nos anos iniciais até a cidade vizinha; casa de parentes pra frequentar o Curso Normal em cidade mais distante.
Não foi um trabalho pesado, como o dos irmãos, mas com certeza não foi nada fácil a escolha dela.
Aos dezoito, a vinda a São Paulo.
O trabalho, a vida econômica independente, convívio com pessoas "pra frente", como dizia o pessoal do interior, ao se referir aos que moravam na capital. Enfim, tudo novo também pra família conservadora, aninhada no casarão de muita gente, fartura e sol.
Mas a mana deu conta de tudo e nos visitava de vez em quando, levando pra casa notícias da capital, ideias novas... Foi ela quem me presenteou com meu primeiro sutiã. Na realidade, eram dois: lindos, de bojo, um azul claro de bolinha branca, outro rosa xadrezinho.Eles enfeitaram e sustentaram, por muito tempo, não só meu corpo, mas também minha autoestima. Com a mana e o cunhado, meus primeiros contatos com São Paulo. "Girassóis da Russia", no cinema do centro, piqueniques no campo da USP, a primeira vez a Santos conhecer o mar.
Assim a mana passou a ser referência pra mim, cinco anos mais nova, desde muito cedo. Achava-a inteligente, corajosa e, cá pra nós, bem feminista pra época: direitos das mulheres, liberdade de pensamento, de comportamentos. Surpreendeu todo mundo, quando, por ocasião do seu casamento, resolveu não acrescentar ao seu o sobrenome do marido.
E, ainda sobre o casamento: o noivo confessou tranquilamente ao padre, no altar da cidadezinha, que não havia feito a primeira comunhão. Ah era muito modernidade, e eu adorava!
De forma que quando chegou a minha vez de decidir a vida, tudo estava mais fácil. A mana já havia aberto muitos caminhos!
Obrigada, mana querida, parabéns pelos seus setenta anos. Tenho muito orgulho de você e sempre te serei grata!!!!
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Tia
TIA
Quase não tive contato com a irmã mais velha, onze anos mais que eu. Quando ela casou, bastante jovem, e foi morar em outra cidade, eu tinha lá meus nove ou dez anos apenas. De forma que a minha lembrança dela é maior depois do seu casamento.
E do casamento também.
A tia Elvira, que era uma costureira de mão cheia, fez o vestido lilás muito bonito, com cauda curta, bem ajustado na cintura, que caiu muito bem ao seu porte alto e magro. Depois um jantar em casa, bem simples, feito pela família, com poucos convidados, pois a nona estava doente. E a mana optou casar mais cedo pra acompanhar o marido que estava se mudando de cidade.
Teve carne-assada, arroz de forno (a lenha) com muito queijo, bebida e festa, mesmo, alegria pelo casamento da primeira filha, que levava o nome das duas avós, Antonia e Joana. Sobre isso, parece que ela não gostava muito, não, e era mesmo chamada pelo apelido.
Em casa ficou sempre a saudade da filha que estava longe, embora não fosse tão longe assim- talvez uma hora, hoje, de carro, mas naquela época as condições eram outras. A comunicação eram as cartas e uma ou duas visitas por ano. Lembro da primeira vez que visitamos a mana em sua casa no sítio dos sogros. Chegamos, o pai, a mãe e eu, de manhãzinha , de carro alugado, após duas ou três baldeações rodoviárias. Ela nos recebeu debaixo das muitas árvores que havia próximo a casa. E foi um encontro muito emocionante. Acho que foi a primeira vez que vi a mãe chorar de alegria.
Alguns meses depois (o anticoncepcional ainda não existia), numa das cartas, havia a boa notícia....a mana estava grávida! Nem se podia falar muito no assunto, mas a sensação foi inesquecível. E quando a criança linda e rechonchuda nasceu, então...a descoberta de um amor diferente! Pegar no colo, ninar, dar e ganhar carinho à vontade...
Definitivamente, ser tia era muito bom, já sabia eu aos dez anos. A longa espera pra chegada do próximo encontro era quase uma tortura. Será que eles vêm pro Natal? Pra Páscoa? Mas acompanhávamos o desenvolvimento da sobrinha pelas cartas "já está engatinhando", dizia a mana. "Agora isso, agora aquilo..."
E quando chegava, a irmã ia mostrando os vestidos que tinha feito pra filha. Caprichados, como sempre. Um de lese, outro de babado com passamanaria... Um laço novo, um sapatinho...Era uma festa e todos curtíamos muito aquela primeira experiência de tios, de avós...
A irmã, na sua vida curta de sessenta anos, sempre me passou a imagem de uma pessoa boa, de fé, de esperança, de rezas pela felicidade dos filhos. Foi assim que eu a percebi construindo, desde muito jovem, a sua bonita família. "Deu tudo certo, mana! Valeram as suas orações!".
Para a querida irmã Nena, com muita saudade e gratidão, hoje, que seria o seu aniversário!
Quase não tive contato com a irmã mais velha, onze anos mais que eu. Quando ela casou, bastante jovem, e foi morar em outra cidade, eu tinha lá meus nove ou dez anos apenas. De forma que a minha lembrança dela é maior depois do seu casamento.
E do casamento também.
A tia Elvira, que era uma costureira de mão cheia, fez o vestido lilás muito bonito, com cauda curta, bem ajustado na cintura, que caiu muito bem ao seu porte alto e magro. Depois um jantar em casa, bem simples, feito pela família, com poucos convidados, pois a nona estava doente. E a mana optou casar mais cedo pra acompanhar o marido que estava se mudando de cidade.
Teve carne-assada, arroz de forno (a lenha) com muito queijo, bebida e festa, mesmo, alegria pelo casamento da primeira filha, que levava o nome das duas avós, Antonia e Joana. Sobre isso, parece que ela não gostava muito, não, e era mesmo chamada pelo apelido.
Em casa ficou sempre a saudade da filha que estava longe, embora não fosse tão longe assim- talvez uma hora, hoje, de carro, mas naquela época as condições eram outras. A comunicação eram as cartas e uma ou duas visitas por ano. Lembro da primeira vez que visitamos a mana em sua casa no sítio dos sogros. Chegamos, o pai, a mãe e eu, de manhãzinha , de carro alugado, após duas ou três baldeações rodoviárias. Ela nos recebeu debaixo das muitas árvores que havia próximo a casa. E foi um encontro muito emocionante. Acho que foi a primeira vez que vi a mãe chorar de alegria.
Alguns meses depois (o anticoncepcional ainda não existia), numa das cartas, havia a boa notícia....a mana estava grávida! Nem se podia falar muito no assunto, mas a sensação foi inesquecível. E quando a criança linda e rechonchuda nasceu, então...a descoberta de um amor diferente! Pegar no colo, ninar, dar e ganhar carinho à vontade...
Definitivamente, ser tia era muito bom, já sabia eu aos dez anos. A longa espera pra chegada do próximo encontro era quase uma tortura. Será que eles vêm pro Natal? Pra Páscoa? Mas acompanhávamos o desenvolvimento da sobrinha pelas cartas "já está engatinhando", dizia a mana. "Agora isso, agora aquilo..."
E quando chegava, a irmã ia mostrando os vestidos que tinha feito pra filha. Caprichados, como sempre. Um de lese, outro de babado com passamanaria... Um laço novo, um sapatinho...Era uma festa e todos curtíamos muito aquela primeira experiência de tios, de avós...
A irmã, na sua vida curta de sessenta anos, sempre me passou a imagem de uma pessoa boa, de fé, de esperança, de rezas pela felicidade dos filhos. Foi assim que eu a percebi construindo, desde muito jovem, a sua bonita família. "Deu tudo certo, mana! Valeram as suas orações!".
Para a querida irmã Nena, com muita saudade e gratidão, hoje, que seria o seu aniversário!
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
VERMELHA
Era vermelha e branca a camioneta Ford, anos 70. O pai tirou zerinho na agência em Jaboticabal, com financiamento oferecido aos agricultores. Da mesma forma, já tinha comprado tratores e outros implementos pro sítio. Carro, assim, de verdade, era o primeiro. Ia dar pra passear, ir à cidade, bem mais rápido e "chique".
O motorista era o irmão, único filho homem e braço direito nas coisas do sítio. Não quis estudar além da quarta série "Nem precisa, vou ser como o pai", ele dizia, remetendo que o pai tinha se saído bem, mesmo não tendo estudado muito.
Lembro dele ainda muito garoto manobrando o primeiro trator pelas roças de milho, café, algodão...Arar, adubar a terra... Depois um trator mais novo, outro, até que chegou a camioneta. Parecia que ele não queria outra coisa, soberano, na direção, que lhe dava um charme, na cidadezinha sem muitas novidades. Sempre com o vidro aberto, colocava o cotovelo pra fora e ia dando "dia" e "tarde" a quem encontrasse naquela estrada de poeira de secar a garganta e doer os olhos. Ou um olhar mais ousado pras moças bonitas. Era lindo o irmão!
E o carro, que era da família, na realidade era dele. Pra mim, a obrigação de lavar, secar e dar um bom brilho pelo menos a cada quinze dias. Mas algumas coisas eram mais ou menos regra: levar todo mundo pra missa das oito aos domingos; trazer de volta lá pelas onze, quando ele parava o jogo se sinuca no bar do tio; levar os irmãos na praça fazer o footing, à noite aos sábados e domingos e voltar depois do cinema; levar o pai na cidade, buscar os parentes, visitar parentes, levar alguém ao médico...É lógico que sempre ocorria alguma confusão: um não chegava, outro se adiantava, mas a verdade é que estávamos sempre na dependência dele pras nossas indas e vindas.
Com o tempo, o trabalho aumentou, vieram os filhos, o irmão tinha que dar conta de tantas coisas, e resolveram arranjar mais um motorista. Foi aí que o pai mais uma vez recorreu ao irmão. Mas dessa vez, pra ensinar a irmã a dirigir. Naquela época, não era comum as moças dirigirem um carro. Inda mais uma camionetona!
O mano largava mais cedo do trabalho pra tentar me dar as aulas. Em meio a árvores e vacas sonolentas, fui me familiarizando com primeira, segunda, freio, embreagem... Acho que era muito mais fácil trabalhar duro, no pesado, do que me fazer aprender aquilo.
Na vida curta de sessenta anos, o irmão dirigiu tratores, carros, mas sobretudo dirigiu bem sua vida, dedicou-se com prazer à terra, fez ela prosperar; dedicou-se à família e ao cuidado incondicional à nossa mãe.
Para meu querido irmão, Santo, com saudade e gratidão, neste mês do seu aniversário!
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
COM QUE ROUPA EU VOU
Roupa, naquela época, quase que se resumia a vestidos. Ou saias, que, lá em casa, não podiam ser muito curtos, embora fosse o auge da minissaia.
Tinha o vestido rosa de renda, tipo tubinho, do casamento da prima; o verde-musgo acetinado da festa de São Benedito; o estampado vermelho e branco (Que bonita você tá, dizia o primo Luis, quando me via com a roupa); o vermelho-escuro, de gola olímpica, que eu estava usando no dia em que fui pedida em namoro pelo menino bonito lá da cidade vizinha...
Mas as calças Lee, dos anos 70, começaram a chegar na cidade. Importadas, davam status a quem usava. Fulano estava de calça Lee? Ah, então interessava. Eu usava, escondido do pai. Saía de casa com uma roupa, depois trocava na casada tia. E as saias, pra ficarem mais curtas era só dar uma uma enroladinha na cintura, depois abaixar. Fazíamos isso na escola, na hora da entrada. E o seu Irapuã, inspetor, nem percebia. "Izolda, não tem um pedaço de pano aí pra pregar na roupa dessa menina? Mamma mia", era uma frase do pai já familiar pra mim.
No frio, uma blusa de lã era o suficiente. Abertas, com botões, elas duravam anos, já que quase nem se percebia muito a mudança de estações naquela terra de tanto sol. No mais, havia os saiotes, sempre usados sob as saias dos vestidos.
Nenhuma dessas peças era comprada pronta, na minha família. Todas costuradas pelas irmãs, que tinham o curso de Corte e Costura (As meninas, em geral, quando ficavam moças, ganhavam de presente uma Singer ou Elgim, que, ao casarem, levavam de enxoval, junto com uma cômoda de roupas bordadas) e costuravam muito bem pra toda a família. Senão, procurávamos com antecedência as costureiras da cidade.
Decidida a confecção da roupa, víamos o dia de ir à Jaboticabal ou Bebedouro, de jardineira, comprar os tecidos, ver as vitrines na casa Paris. Aproveitávamos pra tomar vitamina e comer pastel de queijo na rodoviária. Se sobrasse algum dinheiro, levávamos pra casa maçãs cheirosas embrulhadas no papel de seda.
Os aviamentos (linha, botão, zíper...) eram comprados na cidade, mesmo, no bazar da Marli, ali do lado da praça ou da Luzia, mais lá embaixo. Mais lá embaixo, ainda, na dona Gracinda. O modelo tirávamos das revistas, e as roupas ficavam bonitas e "na moda". Assim foi até os dezoito anos, mais ou menos, quando fomos adquirindo, então, alguma peça pronta.
Chegavam as festas de São José e São Benedito, era dito e feito: tinha que ter vestido novo pro último dia. Primeiro a procissão, depois a quermesse. Os vestidos mais novos eram depois usados pra ir à missa. E quando chegávamos em casa, era só trocar por um mais velho.
Tudo simples. Ou quase!
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