quarta-feira, 20 de junho de 2012
O pulo do gato
Ainda que o pai fosse bastante conservador em relação a algumas ideias, parece que era uma pessoa muito evoluída, à frente da maioria da sua época. Gostava do progresso.
Se a mãe quisesse, por exemplo, reformar a casa, ele não arranjava desculpa e ia logo arrumando os pedreiros, alguém que entendesse da coisa. Tanto que a privada de buraco, no quintal, e o banho de chuveiro manual se transformaram, com o tempo, num confortável banheiro no interior da casa, com chuveiro de água encanada e tudo. De uma casinha tímida e simples das velhas fotografias, pudemos desfrutar de uma casa grande e bonita.
Aliás, ele foi um dos precursores da colocação da água encanada na região. Enquanto na cidade se
puxava água do poço, na casa dele, no sítio, ela já vinha, limpa e majestosa, correndo pelos canos, numa tecnologia invejável para a época. Até hoje se encontra no pomar da casa a caixa de depósito de água com a data inscrita: 1960.
A luz elétrica também não demorou a chegar lá, o que era raro na região rural. E logo vieram a geladeira, a televisão (ah, essa não deu prazer, só passava pouca vergonha, ele dizia). E se aposentaram o ferro de passar (de brasa), o escovão, as lamparinas...
Depois veio o telefone. E já havia os tratores (sempre tinha o mais moderno), a camioneta linda, vermelha, a qual fez questão que eu aprendesse a dirigir. Uma moça dirigir uma camioneta aos dezoito anos não era comum nos anos setenta!
Mas o que sempre me chamou a atenção foi a sua ligação com o conhecimento. Insistia que as pessoas tinham que estudar. E foi com o coração apertado que deixou as filhas saírem de casa pra estudar fora! Ele, embora formalmente tivesse estudado pouco (cinco anos, na Itália, a convite de um padre), continuava a perseguir a aprendizagem. Usava meus livros do ginásio para rever a geografia. Um deles, de capa de plástico floreado de vemelho, ficava no seu criado-mudo de cabeceira. E quando tomava a lição dos filhos reclamava que o estudo aqui no Brasil era muito fraco. "No ginasial e ainda não sabe os cinco continentes? Mamma mia!"
Passava horas da noite lendo romances ("E o Vento Levou "e "Os Três Mosqueteiros" eram os seus favoritos) e os contava de manhã, emocionado, para quem quisesse ouvir. E, importante, era muito crítico: se não gostava, escondia à chave ou punha fogo no livro. Ninguém podia ler aquelas coisas indecentes ou que " falavam mal de Deus".
Porém, o que distraía mesmo o pai era o velho rádio. De manhã e principalmente à noite, sentava-se diante dele e se sentia, mais que nunca, participante do mundo. O Repórter Esso, a CBN ( as vozes de Lucas Mendes e Sandra Passarinho eram familiares pra mim), a Bandeirantes e o famoso O Pulo do Gato, apresentado por José Paulo de Andrade. Gostava das notícias internacionais, de política (era de extrema direita- malufista convicto), de tudo. Depois comentava as novidades, e ai de quem o contrariasse. "Imagina não acreditar que o homem foi à Lua", comentava, mais uma vez indignado.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
De chapéu
DE CHAPÉU
Para o meu pai e para todos os pais que deixam eternizados, nos filhos, a gratidão e o gosto de quero mais, como as balas de hortelã.
O pai gostava do conhecimento e do progresso.
"1960" é a inscrição que está até hoje na caixa da água encanada, que substituiu o velho poço, de corrente e balde, no sítio Bela Vista. Depois veio a luz elétrica, a casa mais confortável,com banheiro interno, o carro de passeio...
Acompanhava, diariamente, no rádio, as notícias nacionais e internacionais: o petróleo, o café, o preço das sacas de feijão, da arroba de gado, mas o que o deslumbrou, de verdade, foi a viagem do homem à lua."Porca miséria! Não acreditar que o homem pisou na lua?" dizia inconformado com com quem duvidava do feito, nos idos dos anos sessenta."Tem até fotografia!.Mamma mia!"
Embora tivesse frequentado pouco tempo a escola, o pai continuava se aprimorando e insistia que as pessoas tinham que estudar. Usava meus livros do ginásio para rever a geografia e matar saudades da terra natal. Um deles, de capa de plástico floreado de vermelho e verde ficava no seu criado-mudo da cabeceira. "Tá vendo essa bota? Bem aqui é o povoado onde eu nasci, Treviso" dizia, apontando o lugar no mapa, o que despertava em nós fascínio e desejo enorme de conhecer aquele lugar que a família deixou, mas que jamais se arrependeu "No Brasil não tem guerra", dizia convicto, remetendo-se à Primeira Guerra Mundial, que viu de perto.
Passava horas da noite lendo romances e os contava de manhã, emocionado com os mosqueteiros, com os conflitos de "E o Vento Levou", para quem quisesse ouvir. E, se não passassem pela sua censura, escondia os livros à chave ou queimava. "Os Meninos da Areia", ganhado do genro paulistano, virou cinza, numa tarde de calor, lá no fogão a lenha, assim como o Erich Daniken. Ninguém podia ler "aquelas coisas indecentes" ou que " falavam mal de Deus".
Sitiante imigrante e muito econômico, o pai se orgulhava em revelar que possuía a conta número 1 da Caixa Econômica de Taiaçu, a cidade que o acolheu e onde formou sua família. Tinha lá um bom dinheiro guardado. "É pra quando ficar doente", dizia. E pra cada neto que nascia, abria uma pequena poupança e entregava aos pais o número da caderneta. Deu tempo de acolher os onze! Ele olhava os rendimentos, os juros... Acho que foi o único presente material que se permitiu dar aos netos em vida.
Mas do que eu queria mesmo falar é do cerimonial que acontecia toda vez que ele ia à cidade. Ou pra ir à Caixa, ou pra cortar o cabelo (a barba ele fazia em casa com a navalha), pra ir no contador ou tomar o ônibus que o levaria a Jaboticabal. Todas as vezes passava no correio e na casa da irmã, a doce tia Elvira, pra tomar um café e papear em italianês.
Então, ele se vestia com roupa social que a mãe deixava sobre a cama. Normalmente eram calças escuras e camisas claras de mangas longas, bem passadas a ferro de brasa. Colocava os sapatos engraxados e não saía sem três acessórios importantíssimos: o relógio dourado, o guarda-chuva e...o chapéu. De feltro,cinza, sempre bem escovado. Ficava mesmo muito elegante, o pai, no seu porte alto e magro.
E lá ia o seu Mário, a pé, cortando caminho. Eram, na realidade, três quilômetros de muito prazer. Ele aproveitava pra ver se o sítio estava bem, se as caixas de água do gado estavam limpas, se havia muito mato, se havia algum foco de formigas... Se o vizinho tinha consertado a cerca....
Ficávamos nós, em casa, esperando o pai voltar. Às vezes, só à noitinha avistávamos, lá longe, o vulto se aproximando. Com seu chapéu, seu guarda-chuvas... Trazia as notícias da cidade, alguma correspondência que apanhara no correio e sempre, sempre, um bom punhado de balas de hortelã!
Acho que o pai gostava, mesmo, era de amor.
Para o meu pai e para todos os pais que deixam eternizados, nos filhos, a gratidão e o gosto de quero mais, como as balas de hortelã.
O pai gostava do conhecimento e do progresso.
"1960" é a inscrição que está até hoje na caixa da água encanada, que substituiu o velho poço, de corrente e balde, no sítio Bela Vista. Depois veio a luz elétrica, a casa mais confortável,com banheiro interno, o carro de passeio...
Acompanhava, diariamente, no rádio, as notícias nacionais e internacionais: o petróleo, o café, o preço das sacas de feijão, da arroba de gado, mas o que o deslumbrou, de verdade, foi a viagem do homem à lua."Porca miséria! Não acreditar que o homem pisou na lua?" dizia inconformado com com quem duvidava do feito, nos idos dos anos sessenta."Tem até fotografia!.Mamma mia!"
Embora tivesse frequentado pouco tempo a escola, o pai continuava se aprimorando e insistia que as pessoas tinham que estudar. Usava meus livros do ginásio para rever a geografia e matar saudades da terra natal. Um deles, de capa de plástico floreado de vermelho e verde ficava no seu criado-mudo da cabeceira. "Tá vendo essa bota? Bem aqui é o povoado onde eu nasci, Treviso" dizia, apontando o lugar no mapa, o que despertava em nós fascínio e desejo enorme de conhecer aquele lugar que a família deixou, mas que jamais se arrependeu "No Brasil não tem guerra", dizia convicto, remetendo-se à Primeira Guerra Mundial, que viu de perto.
Passava horas da noite lendo romances e os contava de manhã, emocionado com os mosqueteiros, com os conflitos de "E o Vento Levou", para quem quisesse ouvir. E, se não passassem pela sua censura, escondia os livros à chave ou queimava. "Os Meninos da Areia", ganhado do genro paulistano, virou cinza, numa tarde de calor, lá no fogão a lenha, assim como o Erich Daniken. Ninguém podia ler "aquelas coisas indecentes" ou que " falavam mal de Deus".
Sitiante imigrante e muito econômico, o pai se orgulhava em revelar que possuía a conta número 1 da Caixa Econômica de Taiaçu, a cidade que o acolheu e onde formou sua família. Tinha lá um bom dinheiro guardado. "É pra quando ficar doente", dizia. E pra cada neto que nascia, abria uma pequena poupança e entregava aos pais o número da caderneta. Deu tempo de acolher os onze! Ele olhava os rendimentos, os juros... Acho que foi o único presente material que se permitiu dar aos netos em vida.
Mas do que eu queria mesmo falar é do cerimonial que acontecia toda vez que ele ia à cidade. Ou pra ir à Caixa, ou pra cortar o cabelo (a barba ele fazia em casa com a navalha), pra ir no contador ou tomar o ônibus que o levaria a Jaboticabal. Todas as vezes passava no correio e na casa da irmã, a doce tia Elvira, pra tomar um café e papear em italianês.
Então, ele se vestia com roupa social que a mãe deixava sobre a cama. Normalmente eram calças escuras e camisas claras de mangas longas, bem passadas a ferro de brasa. Colocava os sapatos engraxados e não saía sem três acessórios importantíssimos: o relógio dourado, o guarda-chuva e...o chapéu. De feltro,cinza, sempre bem escovado. Ficava mesmo muito elegante, o pai, no seu porte alto e magro.
E lá ia o seu Mário, a pé, cortando caminho. Eram, na realidade, três quilômetros de muito prazer. Ele aproveitava pra ver se o sítio estava bem, se as caixas de água do gado estavam limpas, se havia muito mato, se havia algum foco de formigas... Se o vizinho tinha consertado a cerca....
Ficávamos nós, em casa, esperando o pai voltar. Às vezes, só à noitinha avistávamos, lá longe, o vulto se aproximando. Com seu chapéu, seu guarda-chuvas... Trazia as notícias da cidade, alguma correspondência que apanhara no correio e sempre, sempre, um bom punhado de balas de hortelã!
Acho que o pai gostava, mesmo, era de amor.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Das brincadeiras
DAS BRINCADEIRAS
"O menino é o pai do homem"- Machado de Assis, in Dom Casmurro
Bonecas e bolas eram os brinquedos, comprados, que a gente conhecia. Vinham dos pequenos bazares da cidade, ou dos oveiros.
Puxada por um cavalo, a carroça dos oveiros passava pelos sítios apinhada de mercadorias. Compravam das mulheres os ovos de galinha (e as galinhas também) que elas iam juntando nas bacias, formando quase uma pirâmide. Dinheiro de ovo era dinheiro de mulher, e elas ficavam muito à vontade pra negociar com o que os negociantes ofereciam. De agulha e linha a joias e porcelanas. Doces, balas...Mas o que enchiam meus olhos eram as bonecas de plástico roseadas, que dava pra pôr ou tirar as pernas, os braços, e não tinham cabelo.
Uma vez por semana ou quinzena, avistávamos lá longe seu Zé de Almeida, depois seu Toninho Gil, chegando vagarosamente com a carroça cheia de surpresas e delícias. Era um momento feminino de mulheres, crianças, de coisas despreocupadas, sem pensar muito, ali ao redor.
Fora as bonecas, a gente brincava de casinha. Montávamos a brincadeira no pomar, na sombra das bananeiras. Era uma encenação longa, que envolvia muitos afazeres. Primeiro a pesquisa no quintal à cata dos utensílios: as latas de óleo Zílá, de massa de tomate, de sardinha se transformavam em panelas, xícaras e vasos. Às vezes, trazíamos relíquias de outros quintais menos povoados por crianças, como o da tia Amábile. Vínhamos de lá com a cozinha quase pronta.
Fazíamos as estantes de vários andares com tábuas de madeira sustentadas por latas, todas do mesmo tamanho. Colocávamos os pratos, as panelas... o vaso com flores. Varríamos o terreno, levávamos as nossas bonecas, e as espigas de milho se transformavam rapidinho em visitas, em avô, avó.... Folhas picadas no fogo de verdade, e dávamos de comer aos nossos filhos, encostadas no tronco, meio a cachos de banana....Lá ficávamos longas manhãs, até que a mãe chamava para o almoço.
Tinha dias de mais aventura e a gente saía pra caçar passarinhos. Então, fabricávamos espingardas com bambus, escolhidos a dedo no quintal. A ponta da "arma" era aberta com dois ou mais cortes para que ficasse flexível a entrada e saída do "projétil", que se acomodava no nó da madeira. Enchíamos o embornal de macaúvas. Se a espingarda não ia bem, valia usar o estilingue. Não me recordo de alguém ter acertado em algum anu ou outro passarinho, felizmente! Mas era um desafio e tanto!
Algumas das pequenas caixas de água, que o pai deixava sempre limpas, reservadas aos animais, ficavam distantes de casa, e, nos finais de semana, a gente aproveitava para um momento meio proibido, de "nadar" sem roupas, no descampado, de conversar segredos sem perigo de que alguém ouvisse.
Sonho, mesmo, era andar de bicicleta, a que tínhamos acesso somente quando o primo Jesus aparecia. Ele dava uma voltinha com cada um de nós na garupa. Depois ia embora pra Monte Alto e deixava a gente com água na boca! Do vento cortando a cara, do friozinho na barriga do sobe e desce, e da certeza de que havia um mundo além daquele que a gente vivia.
Para as primas Helena e Antonieta, parceiras de uma infância feliz, cheia de liberdade e imaginação.
abril/2012
"O menino é o pai do homem"- Machado de Assis, in Dom Casmurro
Bonecas e bolas eram os brinquedos, comprados, que a gente conhecia. Vinham dos pequenos bazares da cidade, ou dos oveiros.
Puxada por um cavalo, a carroça dos oveiros passava pelos sítios apinhada de mercadorias. Compravam das mulheres os ovos de galinha (e as galinhas também) que elas iam juntando nas bacias, formando quase uma pirâmide. Dinheiro de ovo era dinheiro de mulher, e elas ficavam muito à vontade pra negociar com o que os negociantes ofereciam. De agulha e linha a joias e porcelanas. Doces, balas...Mas o que enchiam meus olhos eram as bonecas de plástico roseadas, que dava pra pôr ou tirar as pernas, os braços, e não tinham cabelo.
Uma vez por semana ou quinzena, avistávamos lá longe seu Zé de Almeida, depois seu Toninho Gil, chegando vagarosamente com a carroça cheia de surpresas e delícias. Era um momento feminino de mulheres, crianças, de coisas despreocupadas, sem pensar muito, ali ao redor.
Fora as bonecas, a gente brincava de casinha. Montávamos a brincadeira no pomar, na sombra das bananeiras. Era uma encenação longa, que envolvia muitos afazeres. Primeiro a pesquisa no quintal à cata dos utensílios: as latas de óleo Zílá, de massa de tomate, de sardinha se transformavam em panelas, xícaras e vasos. Às vezes, trazíamos relíquias de outros quintais menos povoados por crianças, como o da tia Amábile. Vínhamos de lá com a cozinha quase pronta.
Fazíamos as estantes de vários andares com tábuas de madeira sustentadas por latas, todas do mesmo tamanho. Colocávamos os pratos, as panelas... o vaso com flores. Varríamos o terreno, levávamos as nossas bonecas, e as espigas de milho se transformavam rapidinho em visitas, em avô, avó.... Folhas picadas no fogo de verdade, e dávamos de comer aos nossos filhos, encostadas no tronco, meio a cachos de banana....Lá ficávamos longas manhãs, até que a mãe chamava para o almoço.
Tinha dias de mais aventura e a gente saía pra caçar passarinhos. Então, fabricávamos espingardas com bambus, escolhidos a dedo no quintal. A ponta da "arma" era aberta com dois ou mais cortes para que ficasse flexível a entrada e saída do "projétil", que se acomodava no nó da madeira. Enchíamos o embornal de macaúvas. Se a espingarda não ia bem, valia usar o estilingue. Não me recordo de alguém ter acertado em algum anu ou outro passarinho, felizmente! Mas era um desafio e tanto!
Algumas das pequenas caixas de água, que o pai deixava sempre limpas, reservadas aos animais, ficavam distantes de casa, e, nos finais de semana, a gente aproveitava para um momento meio proibido, de "nadar" sem roupas, no descampado, de conversar segredos sem perigo de que alguém ouvisse.
Sonho, mesmo, era andar de bicicleta, a que tínhamos acesso somente quando o primo Jesus aparecia. Ele dava uma voltinha com cada um de nós na garupa. Depois ia embora pra Monte Alto e deixava a gente com água na boca! Do vento cortando a cara, do friozinho na barriga do sobe e desce, e da certeza de que havia um mundo além daquele que a gente vivia.
Para as primas Helena e Antonieta, parceiras de uma infância feliz, cheia de liberdade e imaginação.
abril/2012
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Luizinha
Para a tia Luiza, com carinho
Luizinha - o nome, em letras de forma com desenhos em xis, é a maior manifestação material de carinho que tenho da minha infância. Está grafado, quase se apagando, no centro de uma canequinha de alumínio banhada a verniz, que lhe confere um aspecto dourado, já não reluzente. Foi um presente da madrinha, também Luiza, daqueles tempos de poucos mimos.
Quando nos visitava, com saudades da nona, a madrinha trazia de São Paulo, às vezes, alguma lembrança. Era um conjunto banlom amarelo-clarinho ( uma malha de manga curta, fechada, e uma de manga longa, aberta, conjunto chique que eu usava para ir à missa). Ou uma sombrinha xadrez, de babado na beirada.
Os presentes da tia Luiza foram talvez os únicos da minha infância. E a canequinha, após uso doméstico por muitos anos na cozinha da mãe, nunca me fugiu aos olhos. Hoje está guardada na cristaleira da minha sala. É como se eu resgatasse um tempo, que teimo incansavelmente desvendar. É impossível passar pelo objeto, ler o nome, e não me emocionar. Poderia ser apenas Luiza. Mas é Luizinha!
Luizinha - o nome, em letras de forma com desenhos em xis, é a maior manifestação material de carinho que tenho da minha infância. Está grafado, quase se apagando, no centro de uma canequinha de alumínio banhada a verniz, que lhe confere um aspecto dourado, já não reluzente. Foi um presente da madrinha, também Luiza, daqueles tempos de poucos mimos.
Quando nos visitava, com saudades da nona, a madrinha trazia de São Paulo, às vezes, alguma lembrança. Era um conjunto banlom amarelo-clarinho ( uma malha de manga curta, fechada, e uma de manga longa, aberta, conjunto chique que eu usava para ir à missa). Ou uma sombrinha xadrez, de babado na beirada.
Os presentes da tia Luiza foram talvez os únicos da minha infância. E a canequinha, após uso doméstico por muitos anos na cozinha da mãe, nunca me fugiu aos olhos. Hoje está guardada na cristaleira da minha sala. É como se eu resgatasse um tempo, que teimo incansavelmente desvendar. É impossível passar pelo objeto, ler o nome, e não me emocionar. Poderia ser apenas Luiza. Mas é Luizinha!
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Uma história de roubar pão
E a bela prima Lúcia relembrou, com olhos muito brilhantes, uma história que eu não conhecia dos tempos que moravam com a nona.
Morava na mesma casa muita gente. Os irmãos (homens) iam casando, formando suas famílias, criando os filhos, sem sair da casa dos nonos. Eram cunhadas convivendo no mesmo espaço, dividindo serviços, dificuldades e até mamada para as crianças. Explico: como, às vezes, coincidia de os filhos nascerem mais ou menos na mesma época, aquela que estivesse em casa, dava de mamar no peito para as crianças, fosse a mãe ou não da criança. Eram primos dividindo brincadeiras, atenção e por que não dizer comida também.
A nona comandava a cozinha e não era fácil alimentar tanta gente. A prioridade eram os homens, que pegavam pesado logo cedo na lavoura do café. E o pão, que era escasso, era reservado a eles. As crianças que comessem a costumeira polenta.
E é aqui que entra a história da Lúcia. A nona guardava o pão dentro de uma sacola, pasmem, dentro do quarto dela, num baú. Não, o pão não podia ficar à mercê daquele bando de criança. O que ela ofereceria no outro dia para os homens?
Mas as crianças eram arteiras..E esperavam o momento certo de adentrar, pé ante pé, o quarto da nona, quando ela estava dormindo. E de migalha em migalha, lá se ia o desejado pão. Mas a nona também era esperta: deitada, colocava o livrinho de oração sobre o rosto e ficava esperando os anjinhos. Imagine o susto deles quando ela se levantava e, no seu italiano exagerado, esparramava com eles todos. Não, não tinham tido sucesso naquele dia.
-O bom é que, às vezes, a nona fazia de conta que não estava vendo, contou a Lúcia, com os olhos então ainda mais brilhantes. -E ela deixava a gente roubar à vontade!
Morava na mesma casa muita gente. Os irmãos (homens) iam casando, formando suas famílias, criando os filhos, sem sair da casa dos nonos. Eram cunhadas convivendo no mesmo espaço, dividindo serviços, dificuldades e até mamada para as crianças. Explico: como, às vezes, coincidia de os filhos nascerem mais ou menos na mesma época, aquela que estivesse em casa, dava de mamar no peito para as crianças, fosse a mãe ou não da criança. Eram primos dividindo brincadeiras, atenção e por que não dizer comida também.
A nona comandava a cozinha e não era fácil alimentar tanta gente. A prioridade eram os homens, que pegavam pesado logo cedo na lavoura do café. E o pão, que era escasso, era reservado a eles. As crianças que comessem a costumeira polenta.
E é aqui que entra a história da Lúcia. A nona guardava o pão dentro de uma sacola, pasmem, dentro do quarto dela, num baú. Não, o pão não podia ficar à mercê daquele bando de criança. O que ela ofereceria no outro dia para os homens?
Mas as crianças eram arteiras..E esperavam o momento certo de adentrar, pé ante pé, o quarto da nona, quando ela estava dormindo. E de migalha em migalha, lá se ia o desejado pão. Mas a nona também era esperta: deitada, colocava o livrinho de oração sobre o rosto e ficava esperando os anjinhos. Imagine o susto deles quando ela se levantava e, no seu italiano exagerado, esparramava com eles todos. Não, não tinham tido sucesso naquele dia.
-O bom é que, às vezes, a nona fazia de conta que não estava vendo, contou a Lúcia, com os olhos então ainda mais brilhantes. -E ela deixava a gente roubar à vontade!
sábado, 7 de janeiro de 2012
Férias?
Iam chegando as férias da escola, eu ia ficando triste.
Como assim, levantar de manhã e não ter lugar bom pra ir? Nem arrumar a mala, apontar os lápis, ajeitar o material. Nem pensar na carteirinha que não podia esquecer, no lanche de mortadela ou de manteiga generosa da padaria. E dormir sem a preocupação com a hora de levantar. Tudo faria falta: eram os desafios dos três quilômetros a pé, cortando caminho pelos sítios vizinhos, para, então, tomar o pau de arara que nos transportaria até a outra cidade. E encontrar os colegas, conversar. Olhar de longe o menino lindo da outra classe. Comprar pirulito de caramelo na cantina. E ver os professores e fazer muita lição! E depois, a lição de casa! E procurar no dicionário emprestado as palavras em inglês. (Como era linda a professora de inglês, a Maria Alice, não poderia desapontá-la!). E contar pra mãe o que que tinha acontecido. E ouvir do pai que eu era boa na tabuada, mas não sabia nada de geografia. Que tinha que estudar. Que estudar era muito, muito importante.
De forma que quando chegavam as férias, meu mundo ficava menor. Eu não visualizava nada interessante além daquilo. E o pior: já previa o que de certa forma me amedrontava: que então, como estava desocupada, poderia ir ajudar na roça. É, na roça!
Eram plantações da família e sempre havia alguma coisa pra fazer. Não podia ter preguiça, ouvi várias vezes do pai. Nada de ficar em casa, à toa, enquanto os irmãos estavam na labuta.
Catar algodão era, das atividades, a mais prazerosa; diria, até, lúdica. Olhava-se a extensão do terreno, era uma neve! Pegávamos, então, aqueles flocos macios de dentro da flor de madeira e íamos colocando no grande balaio de palha. Quando este estava cheio, colocávamos nos sacos, que ficavam nas ruas laterais. À tarde alguém vinha, com uma balança, verificar o ganho dos catadores.Os sacos, enfileirados, ficavam todos à espera. Quanto algodão pra tão pouco lucro, eu já observava.
Na colheita do café, ia eu com a mãe pra debaixo dos arbustos fechados de galhos vermelhinhos. Escorregava firmemente a mão neles, do tronco para fora, para que todos os grãos caíssem no chão, forrado previamente para a cata. Sempre tomando cuidado com os arranhões. E com cobras. Elas adoravam os pés de café.
Um enorme pano branco era instalado no meio da roça. Frente a ele, um cavalete de madeira bem resistente.Vários homens batiam fortemente nele os feixes amarelinhos, que eram levados pelas mulheres e crianças ao lugar, depois de cortados com foices. Um exército de pessoas ao mesmo tempo: alguns cortavam e deixavam em montes, outros carregavam e, finalmente, havia os que batiam e os que ensacavam. Era a colheita de arroz! Um teatro a céu aberto!
E havia também a colheita do tomate, do feijão...
E a cada nova colheita, mais eu me lembrava da escola. Maior ela se tornava!
Decididamente, não deveria haver férias. Nunca!
Como assim, levantar de manhã e não ter lugar bom pra ir? Nem arrumar a mala, apontar os lápis, ajeitar o material. Nem pensar na carteirinha que não podia esquecer, no lanche de mortadela ou de manteiga generosa da padaria. E dormir sem a preocupação com a hora de levantar. Tudo faria falta: eram os desafios dos três quilômetros a pé, cortando caminho pelos sítios vizinhos, para, então, tomar o pau de arara que nos transportaria até a outra cidade. E encontrar os colegas, conversar. Olhar de longe o menino lindo da outra classe. Comprar pirulito de caramelo na cantina. E ver os professores e fazer muita lição! E depois, a lição de casa! E procurar no dicionário emprestado as palavras em inglês. (Como era linda a professora de inglês, a Maria Alice, não poderia desapontá-la!). E contar pra mãe o que que tinha acontecido. E ouvir do pai que eu era boa na tabuada, mas não sabia nada de geografia. Que tinha que estudar. Que estudar era muito, muito importante.
De forma que quando chegavam as férias, meu mundo ficava menor. Eu não visualizava nada interessante além daquilo. E o pior: já previa o que de certa forma me amedrontava: que então, como estava desocupada, poderia ir ajudar na roça. É, na roça!
Eram plantações da família e sempre havia alguma coisa pra fazer. Não podia ter preguiça, ouvi várias vezes do pai. Nada de ficar em casa, à toa, enquanto os irmãos estavam na labuta.
Catar algodão era, das atividades, a mais prazerosa; diria, até, lúdica. Olhava-se a extensão do terreno, era uma neve! Pegávamos, então, aqueles flocos macios de dentro da flor de madeira e íamos colocando no grande balaio de palha. Quando este estava cheio, colocávamos nos sacos, que ficavam nas ruas laterais. À tarde alguém vinha, com uma balança, verificar o ganho dos catadores.Os sacos, enfileirados, ficavam todos à espera. Quanto algodão pra tão pouco lucro, eu já observava.
Na colheita do café, ia eu com a mãe pra debaixo dos arbustos fechados de galhos vermelhinhos. Escorregava firmemente a mão neles, do tronco para fora, para que todos os grãos caíssem no chão, forrado previamente para a cata. Sempre tomando cuidado com os arranhões. E com cobras. Elas adoravam os pés de café.
Um enorme pano branco era instalado no meio da roça. Frente a ele, um cavalete de madeira bem resistente.Vários homens batiam fortemente nele os feixes amarelinhos, que eram levados pelas mulheres e crianças ao lugar, depois de cortados com foices. Um exército de pessoas ao mesmo tempo: alguns cortavam e deixavam em montes, outros carregavam e, finalmente, havia os que batiam e os que ensacavam. Era a colheita de arroz! Um teatro a céu aberto!
E havia também a colheita do tomate, do feijão...
E a cada nova colheita, mais eu me lembrava da escola. Maior ela se tornava!
Decididamente, não deveria haver férias. Nunca!
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Natal
Era bom quando chegavam as festas de final de ano.
Não que fosse uma data muito aguardada, na ânsia de ver Papai Noel ou dele ganhar presentes. Absolutamente. Papai Noel era apenas visto nos cartões de Natal que a família recebia dos parentes de São Paulo ( Estimada irmã e família... dizia a tia Cida), dos fornecedores de adubo, dos compradores de café. Chegava o Natal, chegavam os cartões.Tinha os simples e aqueles com musiquinha ( ... já nasceu o Deus menino, para o nosso bem...). Outra referência era a escola, quando a professora dava o modelo, a gente punha embaixo da folha, copiava sem tremer nenhum pouquinho as mãos e pintava bem caprichado, com os lápis mais bonitos, os papais noéis, as velas, as estrelas.
Presentes não havia. Nem do bom velhinho, nem de ninguém. Lembro, entretanto, certa vez, cismei que poderia ganhar um presente. Fiz a carta, pedi um brinquedo, uma boneca, talvez. Era pra colocar a carta nos sapatos embaixo da cama ou na janela? Acho que coloquei na janela.
Não, não houve presente, mas a mãe, sabendo da história, providenciou que a mana, voltando da Missa do Galo, trouxesse para mim uns doces, que foram comprados na padaria da cidade. Eram uns sonhos recheados, que eu recebi das suas mãos, meio decepcionada.
Compras, luzes, ceias, presentes, reveion, definitivamente, não fizeram parte do meu mundo infantil.
Mas Natal era dia de muita fartura, de comer azeitona, de tomar refrigerante (cada criança ganhava uma garrafa de maçã Tupinambá e tomava no gargalo, devagarinho, pra fazer economia), de fazer muita farra. Além de ir à missa, confessar, ver o presépio...
No almoço tinha frango recheado, pernil de porco, arroz de forno... Na véspera, a mãe pegava os frangos no quintal, puxava-lhes o pescoço e logo, logo ia preparar o mais gostoso: a farofa, que eu me lembro de ajudá-la a fazer. Ela moía uma porção de carne de vaca e misturava aos miúdos do frango: coração, moela...Engrossava o caldo com farinha de mandioca e colocava as cobiçadas azeitonas. Só no Natal havia azeitonas. Os frangos ficavam no molho até o outro dia, quando então eram assados vagarosamente no forno a lenha da cozinha. De pouco em pouco a mãe, com o suor escorrendo pelo rosto, virava os assados, com muito cuidado, para que não queimassem.
E após o almoço, então, o Natal terminava. Tão rápido quanto chegara!
Ainda bem que logo viria o Ano- Novo. Esse sim, era bom! Era dia de pedir bom princípio, e de ganhar uns bons trocados!
Não que fosse uma data muito aguardada, na ânsia de ver Papai Noel ou dele ganhar presentes. Absolutamente. Papai Noel era apenas visto nos cartões de Natal que a família recebia dos parentes de São Paulo ( Estimada irmã e família... dizia a tia Cida), dos fornecedores de adubo, dos compradores de café. Chegava o Natal, chegavam os cartões.Tinha os simples e aqueles com musiquinha ( ... já nasceu o Deus menino, para o nosso bem...). Outra referência era a escola, quando a professora dava o modelo, a gente punha embaixo da folha, copiava sem tremer nenhum pouquinho as mãos e pintava bem caprichado, com os lápis mais bonitos, os papais noéis, as velas, as estrelas.
Presentes não havia. Nem do bom velhinho, nem de ninguém. Lembro, entretanto, certa vez, cismei que poderia ganhar um presente. Fiz a carta, pedi um brinquedo, uma boneca, talvez. Era pra colocar a carta nos sapatos embaixo da cama ou na janela? Acho que coloquei na janela.
Não, não houve presente, mas a mãe, sabendo da história, providenciou que a mana, voltando da Missa do Galo, trouxesse para mim uns doces, que foram comprados na padaria da cidade. Eram uns sonhos recheados, que eu recebi das suas mãos, meio decepcionada.
Compras, luzes, ceias, presentes, reveion, definitivamente, não fizeram parte do meu mundo infantil.
Mas Natal era dia de muita fartura, de comer azeitona, de tomar refrigerante (cada criança ganhava uma garrafa de maçã Tupinambá e tomava no gargalo, devagarinho, pra fazer economia), de fazer muita farra. Além de ir à missa, confessar, ver o presépio...
No almoço tinha frango recheado, pernil de porco, arroz de forno... Na véspera, a mãe pegava os frangos no quintal, puxava-lhes o pescoço e logo, logo ia preparar o mais gostoso: a farofa, que eu me lembro de ajudá-la a fazer. Ela moía uma porção de carne de vaca e misturava aos miúdos do frango: coração, moela...Engrossava o caldo com farinha de mandioca e colocava as cobiçadas azeitonas. Só no Natal havia azeitonas. Os frangos ficavam no molho até o outro dia, quando então eram assados vagarosamente no forno a lenha da cozinha. De pouco em pouco a mãe, com o suor escorrendo pelo rosto, virava os assados, com muito cuidado, para que não queimassem.
E após o almoço, então, o Natal terminava. Tão rápido quanto chegara!
Ainda bem que logo viria o Ano- Novo. Esse sim, era bom! Era dia de pedir bom princípio, e de ganhar uns bons trocados!
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