quarta-feira, 18 de abril de 2012

Das brincadeiras

DAS BRINCADEIRAS

"O menino é o pai do homem"- Machado de Assis, in Dom Casmurro

  Bonecas e bolas eram os brinquedos, comprados, que a gente conhecia. Vinham dos pequenos bazares da cidade, ou dos oveiros.
 Puxada por um cavalo, a carroça dos oveiros  passava pelos sítios apinhada de mercadorias. Compravam das mulheres os ovos de galinha (e as galinhas também) que elas iam juntando nas bacias, formando quase uma pirâmide. Dinheiro de ovo era dinheiro de mulher, e elas ficavam muito à vontade pra negociar com o que os negociantes ofereciam. De agulha e linha a joias e porcelanas. Doces, balas...Mas o que enchiam meus olhos eram as bonecas de plástico roseadas, que dava pra pôr ou tirar as pernas, os braços, e não tinham cabelo.
Uma vez por semana ou quinzena, avistávamos lá longe seu Zé de Almeida, depois seu Toninho Gil, chegando vagarosamente com a carroça cheia de surpresas e delícias. Era um momento feminino de mulheres, crianças, de coisas despreocupadas, sem pensar muito, ali ao redor.
Fora as bonecas,  a gente brincava de casinha. Montávamos a brincadeira no pomar, na sombra das bananeiras. Era uma encenação longa, que envolvia muitos afazeres. Primeiro a pesquisa no quintal à cata dos utensílios: as latas de óleo Zílá, de massa de tomate, de sardinha se transformavam em panelas, xícaras e vasos. Às vezes, trazíamos relíquias de outros quintais menos povoados por crianças, como o da tia Amábile. Vínhamos de lá com a cozinha quase pronta.
Fazíamos as estantes de vários andares com tábuas de madeira sustentadas por latas, todas do mesmo tamanho. Colocávamos os pratos, as panelas... o vaso com flores. Varríamos o terreno, levávamos as nossas bonecas, e as espigas de milho  se transformavam rapidinho em visitas, em avô, avó.... Folhas picadas no fogo de verdade, e dávamos de comer aos nossos filhos, encostadas no tronco, meio a cachos de banana....Lá ficávamos longas manhãs, até que a mãe chamava para o almoço.
 Tinha dias de mais aventura e a gente saía pra caçar passarinhos. Então, fabricávamos espingardas com bambus, escolhidos a dedo no quintal. A ponta da "arma" era aberta com dois ou mais cortes para que  ficasse flexível a entrada e saída do "projétil", que se acomodava no nó  da madeira. Enchíamos o embornal de macaúvas. Se a espingarda não ia bem, valia usar o estilingue. Não me recordo de alguém ter acertado em algum anu ou outro passarinho, felizmente! Mas era um desafio e tanto!
Algumas das pequenas caixas de água, que o pai deixava sempre limpas, reservadas aos animais,  ficavam distantes de casa, e, nos finais de semana, a gente aproveitava para um momento meio proibido, de "nadar" sem roupas, no descampado, de conversar segredos sem perigo de que alguém ouvisse.
Sonho, mesmo, era andar de bicicleta, a que tínhamos acesso somente quando o primo Jesus aparecia. Ele dava uma voltinha com cada um de nós na garupa. Depois ia embora pra Monte Alto e deixava a gente com água na boca! Do vento cortando a cara, do friozinho na barriga do sobe e desce, e da certeza de que havia um mundo além daquele que a gente vivia.



Para as primas Helena e Antonieta, parceiras  de uma infância feliz, cheia de liberdade e imaginação.

abril/2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Luizinha

 Para a tia Luiza, com carinho

Luizinha - o nome, em letras de forma com desenhos em xis, é a maior manifestação material de carinho  que tenho da minha infância. Está grafado, quase se apagando, no centro de uma canequinha de alumínio banhada a verniz, que lhe confere um aspecto dourado, já não reluzente. Foi um presente da madrinha, também Luiza, daqueles tempos de poucos mimos.

Quando nos visitava, com saudades da nona, a madrinha trazia de São Paulo, às vezes, alguma lembrança. Era um conjunto banlom amarelo-clarinho ( uma malha de manga curta, fechada, e uma de manga longa, aberta, conjunto chique que eu usava para ir à missa). Ou uma sombrinha xadrez, de babado na beirada.

Os presentes da tia Luiza foram talvez os únicos da minha infância. E a canequinha, após uso doméstico por muitos anos na cozinha da mãe, nunca me fugiu aos olhos.  Hoje está guardada na cristaleira da minha sala. É como se eu resgatasse um tempo, que teimo incansavelmente  desvendar. É impossível passar pelo objeto, ler o nome, e não  me emocionar. Poderia ser apenas Luiza. Mas é Luizinha!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Uma história de roubar pão

E a bela prima Lúcia relembrou, com olhos muito brilhantes, uma história que eu não conhecia dos tempos que moravam com a nona.

Morava na mesma casa muita gente. Os irmãos (homens) iam casando, formando suas famílias, criando os filhos, sem sair da casa dos nonos. Eram cunhadas convivendo no mesmo espaço, dividindo serviços, dificuldades e até mamada para as crianças. Explico: como, às vezes, coincidia de os filhos nascerem mais ou menos na mesma época, aquela que estivesse em casa, dava de mamar no peito para as crianças, fosse a mãe ou não da criança. Eram primos dividindo brincadeiras, atenção e por que não dizer comida também.

A nona comandava a cozinha e não era fácil alimentar tanta gente. A prioridade eram os homens, que pegavam pesado logo cedo na lavoura do café. E o pão, que era escasso, era reservado a eles. As crianças que comessem a costumeira polenta.

E é aqui que entra a história da Lúcia. A nona guardava o pão dentro de uma sacola, pasmem, dentro do quarto dela, num baú. Não, o pão não podia ficar à mercê daquele bando de criança. O que ela ofereceria no outro dia para os homens?

Mas as crianças eram arteiras..E esperavam o momento certo de adentrar, pé ante pé, o quarto da nona, quando ela estava dormindo. E de migalha em migalha, lá se ia o desejado pão. Mas a nona também era esperta: deitada, colocava o livrinho de oração sobre o rosto e ficava esperando os anjinhos. Imagine o susto deles quando ela se levantava e, no seu italiano exagerado, esparramava com eles todos. Não, não tinham tido sucesso naquele dia.

-O bom é que, às vezes, a nona fazia de conta que não estava vendo, contou a Lúcia, com os olhos então ainda mais brilhantes. -E ela deixava a gente roubar à vontade!

sábado, 7 de janeiro de 2012

Férias?

Iam chegando as férias da escola, eu ia  ficando  triste.

 Como assim, levantar de manhã e não ter lugar bom pra ir?  Nem arrumar a mala, apontar os lápis, ajeitar o material. Nem pensar na carteirinha que não podia esquecer, no lanche de mortadela ou de manteiga generosa da padaria. E dormir sem a preocupação com a hora de levantar. Tudo faria falta: eram os desafios dos três quilômetros a pé, cortando caminho pelos sítios vizinhos, para, então, tomar o pau de arara que nos transportaria até a outra cidade. E encontrar os colegas, conversar. Olhar de longe o menino lindo da outra classe. Comprar pirulito de caramelo na cantina. E ver os professores e fazer muita lição! E depois, a lição de casa! E procurar no dicionário emprestado as palavras em inglês. (Como era linda a professora de inglês, a Maria Alice, não poderia desapontá-la!). E contar pra mãe o que que tinha acontecido. E ouvir do pai que eu era boa na tabuada, mas não sabia nada de geografia. Que tinha que estudar. Que estudar era muito, muito importante.

De forma que quando chegavam as férias, meu mundo ficava menor. Eu não visualizava nada interessante além daquilo. E o pior: já previa o que de certa forma me amedrontava: que então, como estava desocupada, poderia ir  ajudar na roça. É, na roça!

 Eram plantações da família e sempre havia alguma coisa pra fazer. Não podia ter preguiça, ouvi várias vezes do pai. Nada de ficar em casa, à toa, enquanto os irmãos estavam na labuta.

 Catar algodão era, das atividades, a mais prazerosa; diria, até, lúdica. Olhava-se a extensão do terreno, era uma neve! Pegávamos, então, aqueles flocos macios de dentro da flor de madeira e íamos colocando no grande balaio de palha. Quando este estava cheio, colocávamos nos sacos, que ficavam nas ruas laterais. À tarde alguém vinha, com uma balança, verificar o ganho dos catadores.Os sacos, enfileirados, ficavam todos à espera. Quanto algodão pra tão pouco lucro, eu já observava.

 Na colheita do café, ia eu com a mãe pra debaixo dos arbustos fechados de galhos  vermelhinhos. Escorregava firmemente a mão neles, do tronco para fora, para que todos os grãos caíssem no chão, forrado previamente para a cata. Sempre tomando cuidado com os arranhões. E com cobras. Elas adoravam os pés de café.

 Um enorme pano branco era  instalado no meio da roça. Frente a ele, um cavalete de madeira bem resistente.Vários homens batiam fortemente nele os feixes amarelinhos, que eram levados  pelas mulheres e crianças ao lugar, depois de cortados com foices. Um exército de pessoas ao mesmo tempo: alguns cortavam e deixavam em montes, outros carregavam e, finalmente, havia os que batiam e os que ensacavam. Era a colheita de arroz! Um teatro a céu aberto!

E havia também a colheita do tomate, do feijão...

E a cada nova colheita, mais eu me lembrava da escola. Maior ela se tornava!

Decididamente, não deveria haver férias. Nunca!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Natal

Era bom quando chegavam as festas de final de ano.

 Não que fosse uma data muito aguardada, na ânsia de ver Papai Noel  ou dele ganhar presentes. Absolutamente. Papai Noel era apenas visto nos cartões de Natal que a família recebia dos parentes de São Paulo ( Estimada irmã e família... dizia  a tia Cida), dos fornecedores de adubo, dos compradores de café. Chegava o Natal, chegavam os cartões.Tinha os simples e aqueles com musiquinha ( ... já nasceu o Deus menino, para o nosso bem...). Outra referência era a escola, quando a professora dava o modelo, a gente punha embaixo da folha, copiava sem tremer nenhum pouquinho as mãos e  pintava bem caprichado, com os lápis mais bonitos, os papais noéis, as velas, as estrelas.

Presentes não havia. Nem do bom velhinho, nem de ninguém. Lembro, entretanto, certa vez, cismei que poderia ganhar um presente. Fiz a carta, pedi um brinquedo, uma boneca, talvez. Era pra colocar a carta nos sapatos embaixo da cama ou na janela? Acho que coloquei na janela.

Não, não houve presente, mas a mãe, sabendo da história, providenciou  que a mana, voltando da Missa do Galo, trouxesse  para mim uns doces, que foram comprados na padaria da cidade. Eram uns sonhos recheados, que eu recebi das suas mãos, meio decepcionada.

Compras, luzes, ceias, presentes, reveion, definitivamente, não fizeram parte do meu mundo infantil.

Mas Natal era dia de muita fartura, de comer azeitona, de tomar refrigerante (cada criança ganhava uma garrafa de maçã Tupinambá e tomava no gargalo, devagarinho, pra fazer economia), de fazer muita farra. Além de ir à missa, confessar, ver o presépio...

No almoço tinha frango recheado, pernil de porco, arroz de forno... Na véspera, a mãe pegava os frangos no quintal, puxava-lhes o pescoço e logo, logo ia preparar o mais gostoso: a farofa, que eu me lembro de ajudá-la a fazer. Ela moía  uma porção de carne de vaca e misturava aos miúdos do frango: coração, moela...Engrossava o caldo com farinha de mandioca e colocava as cobiçadas azeitonas. Só no Natal havia azeitonas. Os frangos ficavam no molho até o outro dia, quando então eram assados vagarosamente no forno a lenha da cozinha. De pouco em pouco a mãe, com o suor escorrendo pelo rosto, virava os assados, com muito cuidado, para que não queimassem.

E após o almoço, então, o Natal terminava. Tão rápido quanto chegara!

 Ainda bem que logo viria o Ano- Novo. Esse sim, era bom! Era dia de pedir bom princípio, e de ganhar uns bons trocados!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Fazendo a América- Brasileiros para sempre




Ser filha de italianos sempre foi um fator importante na minha história. Com orgulho contava de cor a história que eu sabia: o pai viera da Itália com 14 anos,  a família  tinha vindo de navio, sofreu muito com a guerra...

Que orgulho conviver com o nono e nona, ouvir desde pequena uma língua estrangeira, comer coisas com nomes esquisitos, morar na casa com um monte de gente (os irmãos casavam e alguns continuavam morando com os pais, de forma que os primos cresciam juntos), ir à missa todos os domingos...

Mas a minha memória pouco guarda além dessas lembranças.Talvez pelo pouco tempo em que convivi com os nonos, por ser muito criança, ou porque eles não gostavam mesmo de falar muito disso. É como se fosse algo sagrado, um mito, alguma coisa inacessível, apenas pra preservar, intacta.

Apenas tia Assunta era de contar muitas  histórias. E entre aquelas de crime e de assombração, ouvidas no rádio e as de amor, das revistas, volta e meia, surgiam as histórias da Itália, que eram as que realmente me fascinavam.

 Tento reproduzir as informações assim, em flashes, do jeito que a minha memória infantil registrou:

*A família é originária de Treviso, região do Veneto, na Itália.

*Os nonos, Giusepe Momesso e Antonia Bassi Momesso, tiveram 11 filhos: Maria, Elvira, Amábile, Assumpta, Adélia, Sílvia, Luiza, Ângelo, Hermínio, Mário e João.

*Deixaram a Itália em 1924, após a Primeira Guerra.

*Meu pai, Mário, era coroinha  da igreja no pequeno vilarejo, e ganhou do padre os 5 anos de estudo.

*Durante a guerra, escondiam alimentos embaixo da terra para soldados não roubarem.

*U irmão do nono, marido da tia Nieta, morreu na guerra, na Alemanha.

*O nono Bepe chegou ao Brasil 3 meses antes que a família, para procurar emprego.

*A tia mais velha, Maria, casada, não acompanhou a família ( Nunca mais viram essa tia, apenas se comunicaram, por algum tempo, por carta).

 *Junto com a família  vieram uma cunhada do nono ( tia Nieta) e dois filhos: Severino e Remígio.

*A viagem de navio foi longa ( meses) e triste. No porão do navio um filho de 2 anos, gêmeo da tia Luiza, não suportou a viagem. Foi entregue ao mar.

*Chegaram ao interior de São Paulo, numa fazenda de café.

*Trabalharam como colonos, depois como meeiros.

*A família dos fazendeiros eram os Betinni.

*O nono e um filho do fazendeiro foram esperar os imigrantes em Santos.

*O fazendeiro logo que viu, se apaixonou pela bela tia Elvira. E se casaram.

*A vida era dura também na terra estrangeira: a língua, os costumes...

 *Tinham que trabalhar de sol a sol,  fazer muita economia pra poder, finalmente, adquirir o seu próprio pedaço de terra.

Não, em nenhum momento deixaram transparecer alguma dúvida sobre a decisão de ter mudado de país, de enfrentar com muita coragem a América. A famosa terra realmente era boa, "o melhor país do mundo", ouvi várias vezes do pai , mesmo quando a saudade da terra natal batia forte. Aqui não havia guerras, terremotos, e tinha muita, muita terra pra cultivar. Seriam eternamente gratos, brasileiros para sempre!

domingo, 16 de outubro de 2011

Feito em casa


FEITO EM CASA

Flores e sabiás nas toalhas de enfeitar
Ponto cruz , ponto cheio, crochet, ponto atrás
Vários verdes, azuis, amarelos

 Para o banho, toalhas tingidas de saco

Quarados no anil,
Panos de prato, guardanapos

Lençóis de cretone
Esbanjando sinhaninha e bordado inglês

Travesseiro de paina do quintal

Colchão de palha barulhenta

Vestidos de passeio copiados das revistas da capital
Roupa grossa pra trabalhar na roça

Fogão acimentado de vermelho

Do porco, das tripas ao filé-mignon:
Gordura em neve nas latas da despensa
Lombo, linguiça, torresmo...
Sabão no tacho baixo do quintal

Café, da planta ao bule de ágata
Verdura da horta

Pão de sal, pão doce,
Rosquinha de pinga
Rosca de trança

Queijo, manteiga,
 Requeijão puxa-puxa pra brincar

Doce de abóbora,
De leite, de cidra, de mamão
Laranja...

Vestiram, para sempre,

O corpo
A mente
O coração!