sábado, 24 de setembro de 2011

SOBRE OS BEBÊS

 Se, hoje, falar sobre sexo é ainda um tabu pra muitas pessoas, imagine lá pelos idos dos anos sessenta! "Menina, fica quieta", ouvi da mãe certa vez, quando falei, muito feliz, que a irmã tinha contado, na carta, que estava grávida (Só pra ilustrar, sem me adentrar nadinha na questão). Muito tempo depois, fiquei sabendo que em outros lugares mais desenvolvidos do mundo, naquela época, as mulheres  estavam queimando sutiã e tomando anticoncepcionais- uma grande revolução se iniciava.

Mas, falando ou não sobre o assunto, a verdade é que as crianças nasciam.Como nasciam!Graças a Deus! Na minha família e nos arredores, nasciam em casa, quero dizer, na própria casa, ali, bem pertinho da gente. Crianças barulhentas e saudáveis chegavam berrando ao mundo: na casa do sobrinho, dos trabalhadores do sítio, na casa do vizinho, dos parentes.O fato do parto ser em casa, e não no hospital, aguçava ainda mais a curiosidade da molecada. Tão perto e tão distante o mistério do nascimento, para o desespero dos pais, que não sabiam como lidar com a situação complicada  O que faziam era nos expulsar dali de perto.

Não diziam que o bebê vinha da cegonha, não. Como, assim, cegonha, naquele lugar cheio de sol, a  céu aberto, fácil da gente fiscalizar? Arriscavam-se a dizer que foi  Nossa Senhora quem trouxe, ou que foi encontrado em algum lugar, ou que foi encomendado."Fulana encomendou nenê".Ótimo, a pessoa encomendava e, num belo dia, o farmacêutico ou a parteira levava na casa de quem fez o pedido.

A verdade é que bobo ninguém era, e íamos descobrindo o mistério, como um quebra-cabeças: a barriga que crescia, depois desaparecia;a professora ficava barriguda (eu olhava de pertinho entre os botões do vestido,aberto na frente, e não via sequer a pele coberta em panos; depois ela saía de licença). O movimento na casa da grávida, naqueles dias, aumentava. A parteira ou acompanhante  era chamada (Oi, fulana, fala pra sua mãe dar uma passadinha por aqui, depois do almoço) e, às vezes, ela demorava pra voltar. Minha mãe tinha essa função de acompanhar as mulheres vizinhas quando iam ganhar nenê. Então, bem mais tarde vinha o farmacêutico, seu Bahu, com a sua maletinha. Traria ele um bebê dentro da maleta? Mas onde arrumaria esse bebê?

Ficávamos muito, muito, intrigadas, eu e minhas primas. E, no topo de uma porteira de tábuas a uns bons metros de distância do local, o  mais próximo que podíamos ficar, espichávamos os olhos e ouvidos a mais não poder, na ânsia de conseguir  a verdade.

Até que um dia, finalmente tivemos a certeza: sim, o bebê ficava na barriga.

Mas como ele fazia pra entrar lá?

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