segunda-feira, 19 de setembro de 2011
De caminhão pau de arara
DE CAMINHÃO PAU DE ARARA
Naquela época, não era fácil estudar além dos quatro anos primários, na nossa cidadezinha. Não havia ginásio e quem quisesse ou pudesse continuar os estudos tinha que chegar até as cidades mais próximas. A prefeitura cedia um caminhão pau de arara.
Era um caminhão coberto com uma lona velha, marrom, que cobria os bancos de madeira improvisados e transportava aqueles seres quase ets, tão raro era estudar naquela época. Depois de ter passado pelo processo de admissão, etcetera e tal.
O caminhão estacionava bem no centro, na praça, ao lado do bar, naquela época do tio Severino. Às sete saía. Quem tinha mais sorte ia na cabine com o motorista, nosso grandioso seu Dudu.Ir na cabine era ter garantia de ficar imune às quedas, pisões nos pés, aos puxões de cabelo, mudança
de lugar, enfim, de todo tipo de situação natural ou criada pelos veteranos.Mas com certeza era perder toda a "azaração". As moças mais velhas, Sílvia Bazon, Marci Manente, Jandirinha Araújo, Carmem Castro lideravam: inventavam as brincadeiras, criavam as músicas e estimulavam a moçada a cantar.
"O caminhão dos estudantes já não pode mais andar.
Os pneus estão carecas,
E é preciso consertar."
Havia paqueras, namoricos que não iam além de pegar nas mãos. Faziam-se amizades e se ficava de mal. E de bem. E a vida ia devagar, e bem!
O difícil mesmo era quando chovia. Como havia buracos na lona, alguns passageiros eram premiados. A estrada de terra...o caminhão encalhava. O jeito era todo mundo descer. Os rapazes auxiliavam com enxadas, retirando a lama...E haja força pra empurrar o caminhão.
Sem sucesso, então uma grande procissão se formava e a pé chegávamos à escola. Atrasados e enlameados, às vezes. Dependendo de onde havia acontecido o entrave, teríamos andado três, quatro quilômetros.
Os professores e funcionários nos recebiam muito bem, e os constantes elogios deixavam os estudantes locais cheios de inveja. Havia, de verdade, uma rixa entre as duas cidades.
" Lá vêm os índios", diziam, então, nossos anfitriões.
E assim, como índios e de pau de arara, foram feitos os inesquecíveis anos do ginásio!
Que privilégio!
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Índios de causar inveja!
ResponderExcluire orgulho!