terça-feira, 16 de agosto de 2011

De trem, para São Paulo

                          

Naquela  tarde, a mãe estava ainda mais atribulada. Foi mandando todo mundo fazer alguma coisa. Que eu fosse tomar banho, me lavar direito, tirar aquelas cranhas do joelho, limpar bem os ouvidos, as unhas, um banho de verdade. Banho, banho mesmo, não era simples naquela época de água do poço: tinha que esquentar a água, encher um recipiente parecido com um balde, com torneira e chuveiro, e prender no gancho do teto do banheiro. Era abrir a torneira e se esbaldar. Mas tinha que ser esperto, fazer economia, porque logo a água acabava.

Esse alvoroço era por um motivo mais que especial, que eu fiquei sabendo na horinha: no ou-tro -di-a- a- gen-te i-ri-a -pra- São Paulo. De trem.

Ir pra São Paulo era um sonho, uma viagem e tanto. Gente rica, bem arrumada, ônibus, fogão a gás, luz elétrica, geladeira, água nas torneiras, carros e mais carros, eu pensava. A minha referência eram tios e primas que moravam lá e quando iam passear no interior, chamavam  a atenção de todo mundo, eram muito bem tratados. Alegres, levavam máquina fotográfica, presentes...Gostavam de andar a cavalo, de enjoados que estavam de andar de ônibus, de carro.

Pois bem, me vestiram a roupa mais nova, feita pelas irmãs. Era de um tecido xadrez.Não lembro exatamente, se vermelho e azul, ou vermelho e verde. Uma jardineira: saia acinturada, com pregas de uns três centímetros, com um peitilho do mesmo tecido, de onde saíam as alças até as costas, que as meninas usavam com uma blusa por baixo, normalmente branca e de mangas fofas.

Logo de manhã, o carro de aluguel foi nos buscar no sítio. Era o seu Tinô, todo elegante com seu bigode e roupa cáqui,  que nos levaria até Taiúva, onde havia a estação de trem.

Apitos próximos despertaram meu sossego e me deslumbraram. Embarcados, podia sentar, andar de um vagão para o outro, conversar com as pessoas, comprar bugigangas que passavam oferecendo. Pedi para o pai me comprar um livrinho. Era de um formato arredondado, não lembro o tema, bem colorido, de letras grandes. Foi o primeiro livro de história que eu vi e li, com muito prazer, aos nove anos.

A hora das refeições era uma novidade: tomar lanche e até um pequeno almoço nas mesinhas arrumadas num vagão. Um café...Sem trabalho algum!Nem precisava fazer em casa.

Mas do que gostei mesmo foi de ver a paisagem. Nas "pontas" do trem havia um espaço, como que um terraço, onde as pessoas podiam ficar, de pé, observando o que se passava : pastos, árvores, animais e as casas que iam ficando para trás, pequenininhas... Cidade, outra cidade (Qual seria aquela? Lembrava da lista inteira das cidades  que a linda dona Maria Carmem deu pra decorar na aula). Curva, vento, montanha! E o rabinho do trem, lá do outro lado. Piuís e choque-choque do barulho do trem, que deslisava altivo e sem medo, o seu longo caminho.

 Quanta coisa bonita havia  nesse mundo e eu nem sabia!, eu pensava. Quando voltasse à escola, haveria de fazer uma redação. Ah,ia!

Não sei se a redação foi feita de verdade, mas, com certeza, nada dessa viagem se perdeu.Talvez porque tenha sido a primeira. Ou porque tenha sido a única: o pai, a mãe e eu.


   Parabéns, São Paulo!!! Como eu gosto de você!!!








Um comentário:

  1. Êba!! era essa mesma que eu queria!

    E mesmo sendo alguns anos depois você escreveu a redação né?

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