segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Ele é estudante!

Naqueles tempos não era comum estudar além do quarto ano do grupo escolar. Estudar era para uma minoria, para uma elite, como soube bem depois.

 Nos quatro anos primários, no grupo escolar,  aprendia-se a ler, a escrever (a criança entrava na escola aos sete, oito anos, sem às vezes nunca ter pegado um lápis na mão), a fazer as quatro operações. No nosso caso, o suficiente para viver na cidadezinha do interior, movida a agricultura, longe dos jornais, das revistas, da escola secundária.

As crianças, em geral, terminavam o grupo escolar e iam ajudar os pais na lavoura, ou ajudar a cuidar dos irmãos. Ou não faziam nada. A verdade é que estudar era sonho de poucos. Estava muito aquém da realidade. Ou pela falta de estímulo, ou pelo fator econômico e geográfico.

Na minha cidade, para continuar os estudos, além do apoio dos pais, da muita vontade e determinação, era preciso sair de casa. Morar com parentes (aos onze, doze anos) ou, na melhor das hipóteses, viajar de caminhão pau de arara, em estrada de terra, até as cidades mais próximas. Tudo isso depois de passar pelo exame de admissão. Sim, era  um vestibular que a gente prestava para poder frequentar o ginásio. Quanta gente desistiu porque não passou no teste!

Ah, mas havia quem se submetesse a tudo isso! (Normalmente os filhos mais novos). E, pasmem, esses "seres" adquiriam características especiais perante os outros (para o bem ou para o mal); formavam o que hoje se diz, uma tribo:  dos estudantes!

 Ser estudante impunha um certo respeito: às vezes, constrangimento, até, em algumas pessoas. "Olha, conversei com fulano, ele disse isso, e ele é estudante, hein!". "Ah, ele é metido, não dá bola pra ninguém"." Fulana? ah, tá namorando um estudante!","Não vou lá, não, tem estudante! Éramos uns verdadeiros ETS.

A máxima que eu ouvi sobre isso, foram palavras do pai, que, embora grande estimulador do conhecimento e da cultura, via "essa gente" sempre com um pé atrás. "Eles são comunistas", dizia,  então se baseando nos estudantes atuantes na ditadura militar."Deus me livre uma guerra", quando lembrava as dificuldades por que passou  na Primeira Guerra Mundial, quando a família ainda estava na Itália.

 Quando questionado queimando sorrateiramente, no fogão a lenha da cozinha, o livro que ganhara mais recentemente "Eram os deuses astronautas?", retrucou: "Estudam tanto e não acreditam em Deus. Dio mio!"

Fora os pressentimentos negativos do pai, a verdade é que, para mim, foi  um privilégio enorme poder, mesmo de forma acanhada, fazer parte dessa tribo. Uma transgressão: a maior e melhor de todas da minha vida.



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