sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Da terra

Praticamente tudo o que se consumia em casa era retirado da própria terra.

 O arroz e o feijão do dia a dia,  com os quais os italianos se acostumaram de vez (Dio me guarde, polenta "nantra olta", dizia mais ou menos assim, o pai) eram plantados e colhidos na época da safra, ensacados e estocados na tulha.Tinham que durar o ano inteiro. O arroz era guardado com a palha e, quando necessário, levava-se uma ou duas sacas para  a máquina de beneficiar, na cidade. O feijão era debulhado em casa mesmo, nas horas de folga, guardados e, vez ou outra, colocados ao sol pra secagem.

O café, ah, a menina dos olhos do pai! Com a casca ainda verde, lavado, e já no terreirão,  era mexido e remexido. Faziam-se fileiras de café, que ocupavam todo o espaço do terreiro, de cabo a rabo. O pai passava o rastelo várias vezes, de forma que todos os lados do grão tomassem sol. De manhã, de tarde... Quando ele percebia que o céu ficava nublado, que podia chover, chamava todo mundo pra ajudar a recolher em sacos. Era a mãe, as crianças, algum empregado... Era uma via crucis. Passado o temporal, seco o terreirão, todos voltavam pra esparramar aqueles grãos, que não eram apenas grãos. Havia uma vida, uma história de amor, gratidão para com aquele café, que foi, de certa forma, a maneira de subsistência de toda a família, quando chegados da Itália à  terra desconhecida.

Depois de seco, peneirado e ensacado, separava-se uma parte para o consumo anual, reservavam-se algumas sacas para presentear os empregados, e o restante permanecia nas tulhas, esperando um bom preço pra ser vendido. Beneficiado, o café  da família era torrado em casa, num fogão a lenha improvisado  no quintal. Era um aparellho redondo, de ferro, com uma manivelinha que, ativada, fazia os grãos circularem livremente dentro daquela bola. E tinha uma abertura, de onde, vez ou outra, se retirava um grão pra ver se o café estava no ponto. Não podia passar, senão ficava com gosto de queimado, e o pai ia reclamar.

 Finalmente, o café estava pronto, esperando pra ser moído na hora de ser servido. Sobre a chapa do fogão da cozinha havia sempre um bule do mais puro e cheiroso café.

As verduras vinham todas da horta. A mãe se incumbia de preparar a terra, semear, replantar, aguar. De manhã, antes que o solão aparecesse, ela colocava um sapato bem resistente, um chapéu de palha, e ia pra horta. Naquele momento, não gostava de ser perturbada. Enchia bons regadores de água com que molhava os canteiros: a alface (tinha de vários tipos),o almeirão, os repolhos. Não faltavam também o quiabo, o pimentão, a couve-flor, a abobrinha, as berinjelas, a vagem, o milho verde... Do chuchu nem precisava cuidar, dava em qualquer lugar. Nos finais de semana, com muito orgulho, ela enchia bacias da sua produção e mandava pra tia Elvira, pra tia Zefa...

Fruta comprada, raramente. Às vezes, quando íamos a Jaboticabal, arriscávamos, lá no mercado municipal, a compra de uma maçã argentina (tentadora, envolta no papel de seda roxo, cheiro irrsistível) ou de uma pera. Mas era uma extravagância! Eram frutas muito caras, só pra quando alguém estivesse doente. Pra fazer vitamina! Consumíamos, então, as frutas da época, apenas. Não era sempre que tinha laranja, nem manga. Bananas, goiaba, mamão, tinha praticamente o ano inteiro.

As carnes também eram de casa. De porco, de galinha... A ave se pegava no quintal toda semana. A mãe pegava, puxava o pescoço, depenava com água pelando e cortava os pedaços. A parte melhor ficava pro almoço do domingo. A cabeça e os pés iam para o brodo. O fígado, a moela serviam pra recheio.

Os ovos, todas as tardes eram catados no galinheiro.Ou em ninhos escondidos...

Apenas a carne de vaca era comprada. Uma vez por semana, aos sábados, alguém ia lá no Santo Campanharo e seguia as instruções da mãe: "Compra um quilo de carne boa". Carne  boa era carne sem gordura, sem ossos, pra bife. Bife em molho.

Do leite, do curral, eu não gostava nenhum pouco.Achava que ele se misturava ao xixi das vacas, que tinha um gosto esquisito. Apenas adulta tomei gosto pela bebida (já na caixinha). Mas dos queijos, requeijões, da manteiga batida na garrafa sobre o pão feito em casa...

Um comentário:

  1. Eu posso até trabalhar até tarde, mas não posso reclamar. Certeza que trabalho muito menos que esses parentes. Pra mim pelo menos chega uma hora que chego em casa e paro, chegam as férias...

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